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3 de junho de 2019

Na rua

Gisele?, sussurrou o nome com timidez e um sorriso que encantava. Antes que Júlia pudesse dizer que estava enganado, ele já a tinha abraçado com força e dado dois beijos em seu rosto. O abraço de um desconhecido é como o sol de inverno: frio e desconcertante, e não aquece, necessariamente. Num minuto estavam tomando café e conversando como dois velhos amigos. Ele contou que tinha se divorciado, que sua filha morava e estudava em Londres, que o pequeno vivia com a mãe no interior. E que ela, Gisele, estava diferente. Diferente pra melhor, Gi, o tempo só jogou a seu favor, me perdoe o clichê. Os dois riram, Júlia fingiu modéstia, Você sempre foi generoso, são seus olhos, olha aí outro clichê. Os dois riram de novo. Ele disse que continuava com o escritório de arquitetura, apesar da crise. Fazia o que gostava, e por isso valia a pena o sacrifício, não pensava em desistir. Júlia se limitou a assentir. E o Menezes, Gi?, perguntou ele, sinceramente curioso. Não estamos mais juntos, ela disse e baixou os olhos. Ele percebeu o embaraço dela e mudou de assunto. Esse cabelo curto ficou muito bom em você, e ela respondeu Obrigada, e você não mudou nada, a barba só ficou um pouco grisalha, os óculos deram um ar de seriedade ao seu rosto. Quanto tempo, não? Doze?, ela arriscou. Dezoito, corrigiu ele, muito tempo. Os olhos dele estavam fixos nos dela e havia eletricidade visível ali. A Gisele que Júlia decidiu ser insistiu em pagar a conta.

No hotel em que ele estava hospedado os abraços foram mais apertados, como os de dois velhos amantes. Evitaram se olhar enquanto se vestiam. Despediram-se diante de um táxi que ela tinha chamado. Ele a convidou para ir ao Rio de Janeiro um fim de semana qualquer. Júlia perguntou quando ele voltaria a São Paulo. Breve, ele disse, o rosto sério. Abraçaram-se. Ele sussurrou no ouvido dela: Me chamo Cláudio.

 




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3 de junho de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos abraço, amigos, rua

              
            
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