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26 de setembro de 2019

Nada peço

Porque não nasci numa hora boa

nem com nada que se assemelhe a sorte

— onze da manhã, hora de preparar o almoço da família,

e aos sete meses de formado —,

nada peço.

 

Não resmungo, não murmuro, não questiono

ou julgo.

Não corro, não grito, não empurro em caso de terremoto.

 

Minha espinha fica mais dura a cada ano

e grande parte de minha felicidade

consiste em lavar a louça,

cheirar livros

e falar sobre a origem do universo.

 

Aprendi a ver a Via Láctea a dez centímetros do meu nariz

e a admirar as montanhas do Tibete erguidas na mesinha de centro da sala,

sei que as praias do Nordeste brasileiro estão do outro lado da rua

e que todas as luzes de Las Vegas acendem no semáforo da esquina.

 

Posso assistir aos filmes de Lars von Trier,

ouvir os discos de Bob Dylan

e sentir a voz de Tom Waits grudando na minha pele.

 

Tudo isso eu posso e faço:

vivo segundo o azar dos dias

e a intensidade do sol.

Não é um milagre, é só uma alegria.

 

Por isso nada peço,

nem a morte.

Não preciso.

 




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26 de setembro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia dias, morte, nada peço, sol

               
              
            
                

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