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24 de abril de 2019

Naquele instante brevíssimo

A gazela pasta com suas crias. O leão, depois de minutos na tocaia, salta sobre ela, que desembesta campo afora. O caçador, deitado no matagal, observa o leão e a gazela em sua corrida e prepara a espingarda. Antes pensa: se matar o leão, ganharei um grande troféu; se acertar na gazela, terei um troféu menor, mas carne garantida por muito tempo. De golpe, a gazela estanca. Pensa: se o leão não me alcançar, ele pode voltar e matar minhas crias. O leão também interrompe a corrida e abaixa a cabeça, pensativo: por que me cansar correndo atrás da mãe, se, sem nenhum esforço, posso me alimentar comendo os filhotes que ainda não sabem se defender?

Gazela, leão e caçador pararam seus movimentos simultaneamente. Desconcertados, se olham. Nenhum deles sabe que, por uma coincidência inimaginável, participam de um instante de perplexidade universal. São como os peixes que pulam da água e ficam suspensos no ar, ou como as aves quietas penduradas no céu, as asas paralisadas no voo interrompido. É o instante, único no planeta inteiro, em que todo ser animado que habita a superfície da Terra estanca, sem conseguir executar um só movimento. O instante brevíssimo.

O caçador faz sua escolha. Com um disparo barulhento, a vida volta ao que era antes.

 




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24 de abril de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos caçador, disparo, gazela, instante, leão

               
              
            
                

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