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10 de novembro de 2015

Ninguém com quem contar

mercedesMercedes!, gritei, assim que abri os olhos e vi que, mais uma vez, estava sozinho na cama. Há semanas minha mulher está esquisita: perde o sono ainda de madrugada, levanta-se e começa a andar pela casa. Depois sai e caminha a esmo pelas ruas desertas durante horas. Volta com o cabelo em desalinho e um desagradável cheiro de suor, mas sempre a tempo de me preparar o café da manhã.

Olho o despertador e constato que hoje ela está atrasada. Abro o armário e vejo que suas roupas ainda estão lá, se tivesse me abandonado ela teria levado algumas mudas. Também não noto falta de dinheiro em minha carteira e seu telefone celular está sobre a cômoda. Onde raios ela se meteu?

Não sei o que vestir, caralho! Como vou para o escritório se não sei o que vestir? Olho o relógio mais uma vez, oito horas! Ando pela casa, tentando conter a irritação. Vou chegar atrasado! Escuto barulho na porta da frente e pouco depois aparece ela. Está assustada. Olha para mim com medo.

Eu me perdi, Afonso. Não sei o que aconteceu, mas de repente eu fiquei sem saber onde estava. Também não conseguia me lembrar de meu nome, nem de onde morava. Fiquei sentada na sarjeta durante vários minutos, tentando me lembrar de alguma coisa.

Aponto o dedo indicador para o relógio, vou chegar tarde ao escritório. Eu estava surpreendentemente calmo.

Agora incrédula, eu estou dizendo que perdi a memória, Afonso, não me lembrava quem eu era nem onde estava, Mercedes segurava as lágrimas. Era como se eu nunca tivesse existido! Eu me aproximo dela e coloco meu rosto a poucos centímetros do seu, eu ainda não tomei café da manhã e não sei que roupa vestir para ir trabalhar, Mercedes. E você vem com essa história de que se esqueceu do seu nome? Pois bem, se você quer se lembrar de algo, quero que se lembre de que pela primeira vez, em vinte anos, vou chegar atrasado no escritório.

Ela se senta na beirada da cama e começa a soluçar. Digo Você poderia tomar um banho e pentear o cabelo. Está cheirando a vinagre, parece uma selvagem. Ela tira um lenço do bolso e assoa o nariz. Mais essa agora, já não basta seu aspecto sujo e seu cheiro, agora tenho que aturar você limpando o nariz na minha frente? É assim que uma mulher deve se comportar?

Mercedes se levanta em silêncio e abre o armário. Pega um de meus ternos e o coloca sobre a cama, faz o mesmo com uma cueca, uma camisa, um par de meias e a gravata. Coloca os sapatos perto da mesinha de cabeceira. Os sapatos estão sujos, estão manchados, está vendo? Não posso ir ao escritório com eles assim. Ela os olha, vai até a cozinha e volta com um pano e um pouco de graxa. Os sapatos rapidamente ficam limpos e brilhantes.

Agora tenho que correr. Que seja a última vez que me levanto e não a encontro em casa. Ao sair, bato a porta para demonstrar minha contrariedade. Esta será a primeira vez que chegarei tarde ao escritório, caralho! E ela chora porque se esqueceu de quem era! Como se esquecer-se de quem a gente é fosse uma tragédia.

 




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