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21 de setembro de 2016

Ninguém reparou

caos

Ladeira abaixo, sem mãos que a guiem, vai a bicicleta. Na praça, no meio da multidão que vocifera, uma pomba cisca pelo chão e se alimenta das porcarias que encontra. Do meio da torcida uniformizada, ensandecida e com sangue nos olhos — seu time acabou de perder o campeonato — sai um policial à paisana, de punhos cerrados. Diálogo de um adolescente com Nietzsche:

— …e do quê?

— Do quê o quê?

— Cê disse que morreu. Morreu do quê?

— Mas do quê morreu quem?

— Deus, véi! Não era disso que cê tava falando? Carai! E aí, morreu do quê?

Sentia tanta pena do sofrimento alheio que se tornou enfermeira e, depois de trinta anos como profissional, mantém até hoje intactos sua vocação e seu sorriso gentil enquanto aplica a injeção libertadora. No acostamento da rodovia, segurando um ursinho de pelúcia coberto de sangue, um homem olha para o céu e grita, querendo subir até lá e quebrar a cara de alguém. Por falta de uso e obsolescência, bibliotecas são fechadas e cabeças são abertas a pauladas. Cortam árvores e mais árvores para a fabricação de patíbulos e tampas de privada. “O mundo está ao contrário e ninguém reparou?”. Ninguém reparou. Não tem mais remédio.

 




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  1. Ah Mário Baggio… nós reparamos (eu, você e alguns outros) e continuamos a elucidar o que ninguém parece querer ver: que demandamos novas e melhores versões de nós mesmos!!!

    Obrigado por “por reparo”!!!

    • Isso mesmo, caro Rafael: a gente tenta melhorar, mas nem sempre consegue. O mundo à nossa volta não dá muita chance pra isso. Obrigado pela visita e pelo comentário. Abraço.

  2.     
                        
              
            
                

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