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24 de julho de 2018

No ascensor

Apertam o botão do décimo-quinto andar ao mesmo tempo, e o contato dos dedos quase antecipa o apocalipse. Ele afrouxa a gravata, ela afasta o cabelo da testa. Beijam-se. Um vizinho careca entra no segundo. Ele ajusta a gravata e cofia o bigodinho, ela dá as costas e confere a maquiagem no espelho da caixinha de pó de arroz. Disfarçam. O careca sai no quinto.

Ele afrouxa novamente a gravata, ela desabotoa o sutiã. Ele mete a mão — a esquerda, com a aliança — por baixo da blusa e alcança o mamilo. Ela respira chupando os próprios dentes. Outra parada no sétimo, entra a balzaquiana de peruca vermelha. Ele aperta o nó da gravata, ela põe a bolsa na frente do peito e tosse baixinho. Falam que está calor, quase trinta graus, e o verão ainda nem chegou. A balzaquiana fala “até loguinho” e salta no décimo.

Ele tira de vez a gravata, coloca em volta do pescoço dela e a puxa para si. Ela geme “ai” baixinho e, com o rosto a um centímetro do dele, sussurra “bruto!”. Os lábios dela se abrem como manteiga perto do fogo. Dessa vez não entra ninguém. No décimo-quinto, largam-se, suados, alisando o amarrotado da roupa. Olham-se com olhos de promessa, os dela soltam faísca, e se despedem com um toque de mãos. Ele abre a porta do 153 e uma risada de criança vem lá de dentro; ela abre a do 157 e nenhum som vem de lá.

Ela guarda a gravata dele na bolsa, de recordação. No fundo, sempre foi uma incurável romântica.

 




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24 de julho de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos ascensor, dedos, mãos, romântica

               
              
            
                

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