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18 de fevereiro de 2020

No bairro

A carta na minha mão. A cafeteria da esquina. A dona sorridente da banca de flores. O malabarista do sinal vermelho. O carro de luxo que não para no farol porque acha que não precisa. O cabelo pintado de azul da estudante que toma o ônibus. O cartaz da banda funk, convidando para o show de sábado. Os bancários que roubam minutos de trabalho e descem em grupos para o cafezinho das dez horas. As cestas cheias de flores na entrada do restaurante francês. O teto avariado da pizzaria. O cheiro de cigarro e graxa que vem da oficina do seu Edmundo. De lá vem também parte da fumaça que torna o ar duro como chumbo. As pessoas bonitas do escritório. As pessoas feias do escritório. As pessoas de merda do escritório. A carta na minha mão. Os filhos do mágico de rua, que esperam que o pai termine o número para passar o chapéu no meio da audiência. O gato branco da dona da floricultura. A tatuagem do entregador de fast-food, com quem a florista conversa. A varanda do meu apartamento. O vento que sopra forte aqui no sétimo andar. As flores, frescas de orvalho, que brilham nos vasos da minha varanda. A carta na minha mão. As pessoas feias do escritório. O semáforo do cruzamento, que não se cansa de mudar as cores. Os meus pés no parapeito da varanda. Os transeuntes que param de caminhar e olham para cima. Olham para mim. O grito do mágico de rua e o barulho da freada dos automóveis. A cara de terror da vendedora ambulante, que me olha pela primeira vez. As pessoas feias do escritório, que saem correndo da cafeteria para me ver também. O parapeito da minha varanda. As pedaladas no ar. A caída até o asfalto. A carta na minha mão. O baque do corpo no asfalto. O baque. O corpo. O meu.

 




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18 de fevereiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos bairro, carta, corpo, varanda

               
              
            
                

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