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18 de julho de 2016

No café, com uma rosa vermelha

rosa vermelhaParada na porta do café, Juliana olha para os lados, apreensiva. Segura numa das mãos uma rosa vermelha, esse era o combinado. Respira com dificuldade, nervosa, sabe que é um momento difícil, mas está decidida. Desta vez ela vai se atrever e jura para si mesma que não voltará atrás. Já é tempo de dar nome, sobrenome e endereço ao que sente. Não quer mais frequentar as salas de bate-papo da internet passando-se por Renato e usando as fotos de seu irmão como se fossem suas. Hoje vai se revelar de uma vez por todas para o mundo e para Fernanda, tão linda, tão morena, tão feminina com aquelas covinhas e os lábios carnudos. Fernanda, Nanda, Fê era a mulher de seus sonhos. Medrosa Fernanda, arredia Fernanda — resistiu o quanto pôde, mas finalmente se convenceu a experimentar a novidade e marcar um encontro para que se conhecessem, o primeiro de muitos, o primeiro de toda uma vida. Era o que Juliana/Renato desejava.

Foram semanas de longas conversas pelo computador. Juliana/Renato investia, insinuava, pedia Fale mais sobre você, garota, qual é a sua canção favorita, em que filme você mais chorou, que poema te deixou com um nó na garganta em negrito, em itálico, em caixa alta, as letras com sublinhado duplo; Fernanda dissimulava, fugia, disfarçava, mudava de assunto. Madrugadas adentro nesse jogo interminável, Juliana/Renato se consumia de amor e desejo pela outra e desmaiava de sono com as mãos entre as pernas. E agora o encontro consentido: no café, cada uma com uma rosa vermelha na mão, um jeito fácil de se reconhecerem de imediato e não perderem tempo com o que não tinha importância. O que importava de fato, a partir do instante em que se olhassem, eram os toques, os cheiros, a pele com a pele, o tato, as miradas derretidas de paixão, o deixar correr desse amor há tanto represado. Juliana/Renato tinha uma só certeza: ela e Fernanda foram feitas uma para a outra, e esta era a ocasião de confirmar o que o destino e o universo já tinham traçado desde o início dos tempos.

Entrou no café com passo firme, escolheu um lugar discreto e pôs a rosa vermelha sobre a mesa. Nos cinco minutos seguintes, Juliana/Renato vivenciou o melhor de toda festa: a espera por ela. A ansiedade e a boca seca, a excitação antecipada pela alegria do encontro, os olhos pregados na porta de entrada: nunca ela provara tanta emoção junta em apenas cinco minutos. Passados dez minutos, a aflição já era visível em seu rosto; aos quinze, a decepção devastou-lhe a face por completo. Vinte minutos depois, Juliana/Renato engoliu as lágrimas junto com o café frio e sem açúcar e pagou a conta. Ia se levantar quando viu entrar — com as mesmas covinhas e os lábios carnudos de sua Fernanda — um rapaz de ar aterrorizado e tímido, que olhava ao redor e segurava na mão uma rosa vermelha.

 




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