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11 de abril de 2017

No fundo da memória dormem as cores

A dupla de barqueiros parou de remar por um momento para descansar os braços naquela viagem sobre as águas turvas do rio. Havia garrafas e sacos plásticos boiando aqui e ali no meio de imensas bolas de espuma branca, que transformavam a superfície da água numa escultura gótica. E o cheiro, esse, sim, quase insuportável, ardia no nariz e nos pulmões. O menino olhou o céu cinzento como chumbo e tirou a máscara protetora do rosto.

— Papai, você se lembra de como era o sol?

— Como o disco amarelo de um semáforo na avenida. Brilhante, redondo, quente, igual a uma moeda de resplandecente ouro. De um amarelo mais intenso que as últimas espigas do milho que desapareceu há muitos anos. Assim era o sol.

— De cor amarela? Mas não era verde?

O pai sorriu, nostálgico.

— Não, verde era a grama. As plantas eram verdes, quase todos os vegetais eram verdes. A copa das árvores, alguns frutos, os arbustos. Tudo isso era verde.

— E o azul, como era o azul?

— Vamos seguir o curso do rio. Logo você o conhecerá.

Pai e filho recomeçam a remar na direção do azul.

 




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