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3 de maio de 2016

A noite em que a lua rachou minha cabeça

luaA lua caiu em cima de mim e rachou a minha cabeça. Não é a primeira e certamente não será a última vez que isso aconteça, mas agora foi diferente e inusitado. Um rombo na cabeça, provocado por um corpo celeste que decide desabar sobre uma pessoa — isso não é coisa pouca. Dói. E faz sangrar, claro. Nada de hospitais ou médicos, porém. Um parque solitário, um banco sob uma árvore e alguma tranquilidade serão o remédio de que preciso para me recuperar do susto. E esperar, dormindo ou de olhos abertos, que o sangue que escorre de minha cabeça e empapa meus cabelos perca a intensidade e se torne tão ralo quanto imperceptível. E seque sem transformar meu rosto numa repulsiva máscara vermelha.

Sei que corro riscos, sentado sozinho num parque, a essa hora da noite. Mas nada carrego de valor que possa ser roubado. Sei também que isso não interessa aos bandidos e desocupados que perambulam pela cidade à cata de incautos pedestres para golpear-lhes a cabeça, como a lua acaba de fazer comigo e, como ela, converter-se em alguém que xinga e pragueja por não ter encontrado em meus bolsos nada que valesse a pena o esforço. Nunca valerá a pena esforço nenhum, quando o incauto pedestre é só uma pessoa que sai à rua para ver a lua sem a moldura limitadora da janela.

Se sonho ou apenas estou desmaiado, só saberei muito tempo depois. Mas o narrador que se meteu dentro de mim com a sutileza de um supositório cria forças e energia para fazer a história avançar além de minha consciência. Por isso eu sei, e fiquem já todos sabendo, que dormi encostado no banco, o rosto voltado para cima e o braço direito roçando o chão. Durante esse tempo em que fiquei distante de mim, um gato vagabundo se aproximou e encostou seu pelo áspero em minha mão. Não me lembro se senti sua língua lambendo o suor e o sangue que havia entre meus dedos, mas sei que os gatos vagabundos geralmente fazem isso. Intuo que o bicho, sem receber de volta qualquer reação minha, retomou o caminho e foi atrás de algo mais interessante. A lua, por exemplo.

A lua. Estive sonhando com a lua. Quando abri os olhos, muito tempo depois do golpe na cabeça, olhei o céu e não vi nem rastro dela, com certeza perdida entre o algodão acinzentado das nuvens. Um firmamento sem lua era o que meus olhos divisavam. Uma musa a menos para os poetas; a poesia avançou um pouco mais em seu caminho para a morte. E a ferida em minha cabeça já não sangra mais.

 




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