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11 de maio de 2018

Nomes e destinos

Clara, a de pele negra, desfila de salto alto e minissaia pelas ruas mais movimentadas da cidade. Branca, a cheia de sardas e pintas e brotoejas, se prostitui na Rua da Negritude. Conceição aborta numa clínica no Bairro da Luz. Maria da Paz disfarça os hematomas produzidos por seu marido com muito pancake e blush; também usa óculos escuros para ir ao escritório, mesmo quando não há sol. Maria Auxiliadora não auxilia ninguém e diz que é ela quem precisa de auxílio, já que há mais de um ano não consegue vender nada em sua lojinha de bijuterias. Maria da Purificação se esgueira pela Avenida do Amor Bonito, oferecendo sexo em troca de alguns pontapés e bofetões. Linda nasceu e permaneceu feia, embora sua mãe diga o contrário e tente convencê-la de que um dia vai encontrar um namorado. Felícia chora sua tristeza na antessala da Delegacia dos Vadios; sabe o que a espera para além da porta de vidro. Valentina nunca reage aos insultos do marido, mas jura que um dia isso vai mudar. Vitória sempre engole a derrota nas discussões entre as quatro paredes do seu quarto de casada. Dulce vomita no banheiro de um botequim os resíduos azedos do último usufrutuário de seu corpo. Todas vivem na mesma cidade, um lugar miserável onde, faz tempo, as mães desistiram de dar nome bonito às suas filhas.

 




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11 de maio de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos cidade, destino, filhas, nomes, ruas

              
            
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