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14 de junho de 2016

Noturno

noturnoAbigail abaixa o som da televisão quando ouve as batidas na porta. A esta hora só pode ser ele, pensa. Os golpes ressoam com a urgência das tantas vezes em que ele voltou para pedir dinheiro ou para levar à força qualquer objeto da casa que pudesse ser trocado por dinheiro. Tinha jurado que não o receberia novamente, mas algo na voz do outro lado da porta fez com que se apressasse e girasse a chave na fechadura.

— Mãe, corre, abre, estão me seguindo. Me acertaram a perna com uma navalha.

Pela fresta Abigail pôde ver o rosto pálido, a barba por fazer, os cabelos desgrenhados e os olhos súplices. E o sangue que empapava a calça do filho. Deixou-o entrar e trancou novamente a porta, enquanto ele, esbaforido, se jogava no sofá.

— Tem alguma coisa pra comer? Meu estômago tá roncando — pede ele, com ar de cachorro abandonado.

Abigail olha a ferida da perna e comenta que deveria levá-lo ao hospital. Nada de hospital, isso se cura sozinho, o filho a interrompe. Ela então vai até a cozinha e volta com um sanduíche e uma xícara de café. O rapaz devora o lanche, ao mesmo tempo em que a sombra da barba escura se desvanece e de novo aparecem em seu rosto as bochechas rosadas. Abigail o olha com pena.

— E agora, que tal me contar um conto? — ele pergunta, deitando a cabeça no colo da mãe.

Abigail se acomoda no sofá e acaricia a cabeça do filho. Começa a contar a história do lobo apaixonado pela lua cheia, de que o rapaz tanto gosta. Ele sorri quase dormindo, e a mãe vê entre os lábios dele o buraco de um dente ausente. Em poucos minutos ele já está ressonando e na sala só se ouve a respiração regular do bebê e o sussurro da canção que a mãe lhe canta baixinho.

Duas novas batidas fortes na porta assustam Abigail quando ela estava quase pegando no sono. Na soleira estavam dois tipos grandalhões que não pediram licença para entrar na casa buscando seu filho. Um deles segurava uma navalha. Vasculharam todos os cantos e abriram gavetas e armários com violência. Abigail acompanhou em silêncio o movimento dos dois, protegendo com as mãos a barriga avantajada. Minutos depois eles foram embora sem nada dizer e nada encontrar.

De novo sozinha, Abigail se sentou no sofá e abraçou seu ventre flácido e vazio. Pensou que já era hora de ter um filho para lhe fazer companhia nessas noites frias de agosto.

 




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  1. Filho é o projeto mais desejado, o diabo é que leva mais de 30 anos pra vocë saber se deu certo ou nao, mas mesmo que o resultado nao seja o esperado, ainda e o maior projeto do ser humano. Sensivel, profundo e afiado como uma navalha

  2. Filho é o projeto mais desejado , o diabo é que leva 30 anos pra saber se deu certo ou nao, mas mesmo q o resultado nao seja o esperado, ainda é o maior projeto do ser humano.Sensivel, profundo,afiado como uma navalha

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