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10 de setembro de 2018

Numa esquina de Sampa

Esquina da Paulista com a Augusta, São Paulo. Dia de sol a pino. Calor senegalês, o suor escorre e empapa o pescoço e as costas. O semáforo de pedestres está vermelho. As pessoas se aglomeram dos dois lados, querendo atravessar. O sinal demora a mudar de cor. Aparece cada vez mais gente. De um lado e de outro, todos fixam o olhar no homenzinho vermelho em frente. Impacientes, aguardam. Ânimo, turma!, diz um homem a seus companheiros de calçada, logo chegará o dia em que a gente vai alcançar o lado de lá. Todos assentem com a cabeça e veem nele um líder, aquele que os conduzirá com segurança ao outro lado. Talvez alguns tenham que morrer na jornada, segue dizendo o homem, mas isso faz parte do jogo. Os mártires ficarão para sempre em nosso coração e memória. O grupo reage com entusiasmo, é isso aí, Marivaldo! Marivaldo tem outro nome, mas isso é o de menos. O semáforo ainda está no vermelho.

Na calçada da frente o grupo contrário elegeu uma mulher como líder. Tem queixo saliente, olhos perfurantes e a atitude que se espera de alguém preparado para lutar. Estamos contigo, Suelen, gritam as pessoas em volta dela. Ei, esse não é o meu nome, ela responde, mas decide que não é hora de polemizar e assume a nova identidade. No lado oposto, o líder a olha, ri com desdém e mostra o dedo médio, provocador. Seus companheiros de calçada, homens e mulheres de todas as idades, o imitam e aproveitam para esquadrinhar, entre a multidão de cabeças da outra trincheira, contra quem irão se chocar assim que o sinal ficar verde. Por enquanto, o sinal de pedestres continua vermelho.

Em ambos os lados há pessoas com binóculos, querem ver melhor e mais perto o rosto horroroso dos inimigos — porque inimigos são sempre horrorosos. Alguém tira uma navalha da bolsa. Outro enfia o soco inglês nos dedos, como anéis. Câmeras ocultas nas duas calçadas registram tudo. O sinal fica amarelo.

Um estudante magricelo da turma da Suelen pergunta a ela se poderia pintar de spray azul o vidro com a luz amarela, assim os idiotas do outro lado verão a luz verde e começarão a atravessar a rua, e aí os carros vão passar em cima deles, ó, tenho aqui um tubo de spray azul. Suelen responde que ainda não, que tenha paciência, que no momento certo não restará nenhum inimigo em pé, ninguém para contar essa história, garantiu ela. O estudante fica um pouco decepcionado e recita, quase em lágrimas, o Lorca de “verde que te quero verde”. Por fim, o sinal de pedestres muda para a cor verde. Verde!

A eles!, grita Marivaldo, vamos enterrá-los no asfalto. O sol está do nosso lado e já quase derreteu o chão, vai ser moleza. Os dois exércitos se preparam para marchar até o embate. Suelen ajeita o sutiã. Marivaldo organiza sua turma por ordem de altura, as mulheres e as crianças primeiro, diz. Os dois grupos avançam com passo resoluto. Os carros, imóveis, estão alinhados, e os motoristas observam o espetáculo. Os meninos de rua, que habitualmente se ocupam de limpar os para-brisas em troca de algumas moedas, agora se agrupam na sarjeta e fazem apostas sobre o desfecho da guerra entre os pedestres. Falta pouco, diz um deles, eu aposto que o lado de lá vence.

Três passos, dois passos, um passo. E então, de maneira inesperada, todos mudam de atitude. Começam a pedir licença e a desviar o corpo, desculpa aí, senhora. Suelen sumiu, Marivaldo também. O máximo que se viu foi um esbarrão aqui, outro ali. Ninguém caiu, ninguém foi chutado, ninguém pisoteado. Cada um chegou ao outro lado e seguiu seu caminho — e a quem interessa o caminho de um desconhecido? Todos fingiram muita, muita, muita civilidade. Que bando de cagões!

 




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