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30 de maio de 2017

O aluguel

Prestem atenção, digo às crianças, as pombinhas estão aí pra comer as migalhas que deixamos no chão. Não devemos maltratá-las. Elas descem até a praça porque aqui há muita gente comendo pipoca e elas gostam de pipoca.

Meu filho Uracy, o mais velho, vê as aves e corre atrás delas, que levantam voo, ariscas, deixando o garoto no chão, os braços abertos em movimentos frenéticos, como asas. Ele bate os membros com tamanha força a velocidade, que também começa a voar. Valdecy e Maricy, os irmãos menores, aplaudem e gritam de alegria e eu mesmo fico pasmo vendo o prodígio do meu garoto mais velho. E quanta habilidade ele demonstra! No começo estava um pouco sem controle e algo aflito quando perdia altura, mas logo retomou o ritmo e passou a se divertir planando sobre a cabeça das pessoas na praça. Atrevido, roçou a ponta mais alta do coreto e a torre da igreja. Passou sobre mim e, rindo, arrancou o meu chapéu. Valdecy buscou no chão uma pedra pequena para atirar em Uracy, mas eu o impedi. Não faça isso, Valdecy, você pode machucar o seu irmão. Grito para Uracy: Desça agora, já chega, temos que ir para casa.

Uracy aterrissou suavemente ao meu lado e, um instante depois, estávamos rodeados de gente que queria ver de perto o menino voador. As pessoas se amontoam, há empurrões, cotoveladas e insultos e eu vi quando o rapaz de camiseta amarela cuspiu na senhora de cabelo azul que, na ponta dos pés, queria ver o que acontecia naquela aglomeração. Chegou um policial muito irritado com a confusão e, depois de se inteirar do que acontecia, exigiu de mim o pagamento de uma taxa por permitir que meu filho voasse sem licença. Ameaçou levar Uracy para o abrigo de menores caso eu me negasse a pagar. Duas velhas beatas começaram a rezar alto, pedindo perdão para os hereges, nós, que, segundo elas, estávamos sob os desígnios do demônio. Uma mulher esticou o braço para tocar em Uracy e gritou para que ele curasse seu marido, cego há dois anos. Me arrebata, menino voador!, vociferou um velho em lágrimas. O senhor de terno e gravata perguntou se sua defunta esposa estava no céu ou no inferno.

Uracy, Valdecy e Maricy se agarraram às minhas pernas, tremendo de medo. Maricy, a menorzinha, começou a chorar.

Meu filho Uracy estava assustado. Tentei, de todas as formas, protegê-lo das mãos e das perguntas estúpidas das pessoas ao redor. O policial insistiu no pagamento da taxa de voo. Eu disse que não devo pagar nada, que meu filho só estava brincando. Ele se aproxima de mim e, falando ao meu ouvido, diz que pode aliviar a dívida se eu alugar o Uracy para a festa de aniversário de seu filho. Olho para a multidão, que está prestes a se enfurecer, olho para meus filhos, que não param de tremer de medo, olho para o policial, que espera uma resposta minha, e digo com um fio de voz:

— Está bem, o aluguel do Uracy é mil reais, por duas horas. Pagamento adiantado. Onde é a festa?

 




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30 de maio de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos aluguel, taxa, voar, voo

               
              
            
                

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