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13 de outubro de 2016

O amigo fiel

amigo

Eu soube que meu nome era Juca no dia em que a mãe do Bernardo nos surpreendeu conversando na cozinha.

— Tá conversando sozinho, filho?, ela perguntou, quase pisando na minha cabeça.

Não, mãe, tô falando com o Juca, respondeu o meu amigo Bernardo, impaciente, como fazia sempre que lhe pediam explicações sobre o óbvio.

Desde esse dia eu aprendi que meu nome é Juca. A mãe do Bernardo olhou em volta e não me enxergou; melhor assim.

— Ah, entendi, o Juca. Então agora vá brincar em outro lugar, tenho que preparar o almoço, teu pai já vai chegar.

Naquela tarde Bernardo e eu brincamos até quase a hora do jantar. Meu amigo estava como sempre: carinhoso, mas um pouco autoritário. Ele não percebeu que eu tinha compreendido algo sobre mim que antes ignorava: o meu nome. Isso era muito importante, pois eu passara a existir, era alguém com uma identidade. Tão importante quanto essa descoberta foi ter conhecimento de que os traços que até esse momento delimitavam minha consciência começavam a se esfumaçar, e eu sentia todo o meu ser sendo arrastado até um ponto de fuga tão distante quanto aterrador: apesar de ter um nome, eu começava a desaparecer.

Meu amigo Bernardo passou a me convocar cada vez menos, até que deixou de se lembrar de mim durante longos períodos de tempo, e um dia me esqueceu completamente. Fiquei muito triste quando isso aconteceu, porque via meu amigo com outros meninos iguais a mim, sem que eu fosse sequer chamado para as brincadeiras. Meu rosto estava refletido no rosto das outras crianças, mas eu não podia falar com elas sem a permissão do Bernardo. Tinham me dito que uma coisa assim aconteceria mais cedo ou mais tarde, mas eu não acreditei. Agora acredito. E não gosto nem um pouco de ver meu corpo e meu rosto se transformando em fumaça. Fumaça é uma coisa que desmancha no ar e eu não quero que isso aconteça comigo.

Nos dias atuais, entretanto, eu passo muito tempo ao lado do meu amigo Bernardo, porque ele me chamou. Vejo sua cabeça sem cabelos, a barriga inchada e muita tristeza em seu olhar. Ele está sempre na cama, ligado numa máquina que solta uns apitos agudos. Eu sei que meu amigo sofre. Seu corpo está doente e miserável e isso também me entristece. Bernardo agora está velho, mas eu continuo igual. Não cresci, porque a meninos como eu, criados para diminuírem a solidão de outros meninos, não é dada a sorte de envelhecer.

De vez em quando uma mulher e dois moços grandes (um deles muito parecido com o Bernardo) entram no quarto, olham com olhos tristes para a cama e depois saem. Eles não me veem nem me ouvem, mas eu gostaria que eles soubessem que não precisam se preocupar, porque eu estarei aqui o tempo que for necessário. E segurarei a mão do meu amigo quando chegar o momento.

E, mesmo que agora o Bernardo não me escute, não me canso de repetir em seu ouvido que não tenha medo, pois não estará de todo morto enquanto houver alguém que se lembre dele. E eu sou um amigo fiel, ainda mais com quem me deu um nome.

Quanto a mim, só me restam algumas horas de vida. As mesmas horas que restam para o meu amigo Bernardo.

 




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