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22 de junho de 2015

O amiguinho

PassarinhoGaiola1Ele estava indo embora, era só uma questão de tempo. Eu o via já fraco, comendo muito pouco, sem vontade ou apetite. Nesses últimos dias estava cabisbaixo, quase imóvel. Dava pena vê-lo tão apático, tão diferente de outros tempos em que se movia lépido, em que era feliz. Agora não passa de uma sombra do que costumava ser. Sempre achei triste vê-lo por entre as grades da gaiola, mas com o tempo me acostumei. Ainda que possa parecer egoísta, eu ficava reconfortado por saber que ele estava ali: sua companhia me fazia tão bem e eu só poderia agradecer por tanta generosidade. Com a presença dele a solidão pesava menos. E, quando ele cantava, eu juntava minha voz à dele e éramos os dois mergulhados numa só melodia, numa só canção.

A vida prática, porém, ensina que não é bom tomar-se de tanto carinho por um animal de estimação. Eles logo morrem e a gente fica só, desarvorado. Perde-se o chão e tudo passa a não ter mais sentido. Como aconteceu agora. Meu amiguinho se foi e eu fiquei perdido e triste, agitando as penas sem consolo, voando desorientado aqui na gaiola e sem vontade nenhuma de cantar. Perdi a melodia, minha garganta secou. Agora só penso com qual dos dois filhos do meu amigo eu vou ficar. O mais velho nunca se importou comigo. Talvez o mais novo queira me levar. Eu não sei para onde vou.

 




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22 de junho de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos amiguinho

              
            
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