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8 de junho de 2015

O amor que machuca

o amor que machuca

Entro no quarto e a olho. Falo Bom dia, como passou? e ela responde Bom dia, passei bem. Notei que hoje ela parece ter a voz um pouco mais doce que ontem. Sem gritos, sem estridência. Doce. Calma, apaziguada. Fala sem medo, como deve ser a conversa entre os casais. Olha-me nos olhos e não pisca, sua vista desanuviada, clara. Olha-me nos olhos, sim, e nesse olhar não há nem sinal do pavor de antes. Eu acaricio seu rosto, beijo seus lábios de leve. Ela não recusa meu carinho, antes o aceita com resignação.

Começo a tratar de sua higiene, penteio seus cabelos negros e longos que descem como cascata sobre as costas. Ela se entrega aos meus cuidados sem resistência. Já não chora, pelo menos não quando estou diante dela. Penso que há um indício de sorriso em seu rosto. Abre a boca sem que eu precise pedir e recebe as colheradas de arroz com feijão, bife com cebolas e ovo frito. Eu mesmo preparo sua refeição e ela parece estar agradecida.

Conto histórias. Falo sobre o tempo, a chuva que não cai há dias e sobre como tudo está empoeirado. Ela volta os olhos para a janela, tentando adivinhar a rua que existe depois dos vidros e das grades. Falo de um filme que vi. Mostro fotografias antigas, dos namorados que éramos. Digo que ela está agora mais bonita, mais madura. Ela esboça um sorriso.

Sua doçura é tanta que hoje sinto que em breve poderei desatar os nós. Pelo menos os das mãos e dos braços, para que ela possa me abraçar e acariciar meu rosto, como fazia antes de dizer que iria me abandonar.

 




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