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5 de outubro de 2015

O animal

animalQuando eu o vi na cozinha, tão assustado como eu, lembrei-me de todas as vezes em que um bicho tinha entrado em nossa casa. O passarinho, que não encontrava a saída e voava desesperado de um lado ao outro da sala; o gato de pelo amarelo que surgiu uma noite, certamente procurando uma parceira; a aranha que apareceu de repente, vinda de trás da geladeira; a serpente que veio rastejando do quintal, os sapos que volta e meia apareciam na janela…

Eu me lembrei de todos, mas esta vez é diferente. Este que aí está é muito maior que todos os outros bichos que já invadiram nossa cozinha. Gritei para minha mãe, enquanto o vigiava para que não escapasse. Quando ela chegou, também se assustou com o tamanho daquele animal e ficou uns minutos indecisa, sem saber que atitude tomar. Até que gritou com voz firme, agitando os braços para espantar o bicho: Fora! Vá-se embora desta casa e não volte nunca mais aqui. Fora de nossa vida!

O animal, ainda assustado, começou a se mover na direção da porta de saída. Estranho! Justo antes de sair, ele voltou a cabeça e emitiu um som baixinho: Tuty! Eu ouvi perfeitamente: Tuty. Tuty era o apelido de minha mãe, e só meu pai a chamava assim.

Meu pai. Sumiu de casa há vários anos, e nunca mais soubemos dele. A bebida e o gosto pela aventura o levaram para sempre de nossas vidas, depois de rapinar tudo o que tínhamos para sustentar os vícios. Minha mãe nunca o perdoou, e rapidamente esquecemos que ele existia.

Agora esse animal esquisito, grande, peludo e sujo trouxe de volta lembranças desagradáveis, que não desejamos nem queremos. Atordoada, minha mãe foi para o quarto e só dormiu depois que lhe demos um calmante. Eu fiquei na cozinha,  com aquele som que não me saía do pensamento: Tuty!

 




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5 de outubro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos animal, bicho

               
              
            
                

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