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23 de maio de 2019

O aperto de mãos

— O que quero dizer, delegado, é que no porta-malas do meu carro havia um cadáver, e agora não há mais.

— Então o senhor veio se entregar?

— Me entregar? A troco de quê? O senhor entendeu errado. Eu estou aqui para denunciar.

— Para denunciar que tinha um cadáver no porta-malas?

— Para denunciar o desaparecimento do cadáver!

— Mas como é isso? Quem era o morto? E o que ele fazia no seu carro?

— Que importância tem isso? Eu estou dizendo que já não está lá.

— Senhor governador, olhe bem para mim, por favor. Como isso não tem importância?

— Delegado, o senhor é novo aqui, não? Como é o seu nome?

— Fonseca, senhor. Delegado Fonseca. Sim, sou novato aqui neste distrito.

— Então, escute bem, Fonseca. Eu tenho urgência em resolver essa questão, entende?

— Olhe, senhor governador, temos duzentos mortos sem reconhecimento em nosso depósito, alguns vindos nesta mesma semana, não temos como saber a identidade de todos em cinco minutos.

— Então seja razoável, Fonseca. Como eu dizia no início, havia um cadáver no porta-malas do meu carro e esse cadáver simplesmente sumiu de uma hora para outra. Quero resolver isso imediatamente.

— Bom (o delegado suspira), como duvido de que os “suspeitos” (faz aspas com os dedos) possam “ver” (mais aspas com os dedos) o senhor, faremos uma triagem na sala de autópsia. Tenha a bondade de esperar um momento e darei ordem para que preparem os “suspeitos” (aspas com os dedos novamente).

O delegado sai e retorna em cinco minutos.

— Governador, tenha a gentileza de me acompanhar.

Os dois percorrem um corredor e entram numa sala gelada. O governador sente arrepios. Olha os corpos cobertos e parece indeciso.

— Aquele da segunda fila, à direita, perto da porta. O tamanho parece ser o mesmo do que estava no meu carro.

O delegado descobre o cadáver. É uma mulher com traços orientais, de idade mediana. Não apresenta sinais de morte violenta. Olha para o governador:

— Isso se parece com o que o senhor tinha em seu porta-malas?

O governador dá de ombros.

— Acho que sim, não tenho muita certeza… (analisa o rosto da morta, avalia seu porte) Está bem, levo essa mesmo. Assim resolvemos o caso e encerramos o assunto.

— Mas como “levo essa mesmo” (aspas)? Quem é essa senhora? Por acaso o senhor tinha relação com ela? Os legistas ainda não determinaram a causa da morte nem… “Encerramos o assunto”? (novas aspas) Que “assunto” (aspas; Fonseca era muito profissional, novato nesse distrito e gostava de saber detalhes) o senhor quer encerrar?

O governador puxa o delegado para um canto, aperta fortemente a sua mão e a chacoalha olhando-o nos olhos. Não a larga enquanto fala.

— Ouça, Fonseca, se você mandar analisar sua mão neste exato momento, encontrará transferências de células epiteliais da minha para a sua mão, entende? Isso já pressupõe que eu tenha uma relação com você. Não me faça perder mais tempo. Mande embrulhar essa mesmo.

Fonseca solta a mão do governador e a enfia no bolso do paletó. Com a outra, faz sinal para os dois funcionários que estavam na entrada do depósito. Eles embalam o cadáver com destreza e o levam para fora. O governador e o delegado caminham devagar na direção da saída. O primeiro fala mais pausadamente agora, com tranquilidade.

— Sabe, Fonseca, acho que vou gostar de você, já mostrou que conhece bem o seu trabalho. Tenho certeza de que saberá lidar com esse caso com a conveniente discrição. Nos vemos por aí.

Vai para seu automóvel cercado pelos seguranças. O motorista arranca e desaparece. Fonseca volta assoviando para a sua mesa de trabalho.

 




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23 de maio de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos cadáver, delegado, governador

               
              
            
                

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