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26 de outubro de 2016

O aplaudidor

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Terminada a greve, Ataíde foi demitido e, meses de desemprego e penúria depois, aceitou a única ocupação que lhe ofereceram: aplaudidor. Período integral, alguns benefícios, salário que dava pro gasto e a empresa ainda bancava o transporte até o local do trabalho. O ofício era bem simples: aplaudir, com pequenas variações como gargalhar, levantar-se, sentar-se, gritar e assoviar, tudo sob a indicação do Regente. Ataíde ficou feliz porque agora poderia, quem sabe, comprar uma geladeira nova e nunca mais ouvir sua mulher chamá-lo de frouxo e incompetente.

Passou anos na função e se especializou: tornou-se um aplaudidor profissional, frio, compenetrado, asséptico, verdadeiramente entregue ao ofício. Não falava sobre o passado. Se algum saudosista lhe perguntava como era a vida na empresa anterior, Ataíde desconversava e mudava de assunto. O passado a gente tem que deixar no passado, pensava consigo. Não queria mais saber das greves e das utopias pelas quais lutava como se sua vida dependesse delas. Agora tinha um trabalho a realizar e estava satisfeito. Tão satisfeito que, no dia em que foi promovido a Regente, sentiu-se orgulhoso e reconhecido. Afinal, depois de aplaudir tanto sob o comando de um terceiro, agora era ele quem comandava.

No dia do incidente teve a oportunidade de mostrar à empresa o quanto estava agradecido. Num determinado momento, durante o comício do chefe de sua empresa, deu o comando de aplaudir e percebeu, com seus olhos argutos, que um jovem e novato aplaudidor na segunda fila tinha permanecido imóvel. As emissoras de televisão apontavam as câmeras para a turba ensandecida e lá estava ele, impassível, sem mover um músculo. O Regente Ataíde agiu rápido: mandou chamar os guardas e deu ordem para que castigassem o rebelde, que caiu ensanguentado sob uma chuva de cassetetes. Os demais aplaudidores ficaram quietos, olhando a cena. Foi quando Ataíde, num admirável senso de oportunidade, gritou Que continue o espetáculo! E todos os aplaudidores, sob seu comando, explodiram em palmas, gritos e assovios. O chefe, no palanque, não escondia seu contentamento. As câmeras registraram cada detalhe da cena, para alegria dos telespectadores que estavam em casa. O júbilo daquele instante transbordou para todas as ruas, toda a cidade, todo o país. Ataíde estava orgulhoso de seu trabalho e sorria, satisfeito e com a sensação de dever cumprido.

 




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