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22 de outubro de 2015

O artista

artista3Dia de estreia. Ainda fora do tablado, o jovem Gotardo engoliu em seco, aguardando a hora de entrar em cena. Nervoso. Concentrado. Sabia da importância de seu papel e queria desempenhá-lo bem. Ouviu o murmúrio impaciente do público e sentiu as costas molhadas de suor. Estremeceu levemente quando passou por sua cabeça a possibilidade de falhar. Isso não poderia acontecer, seria um desastre. Afastou o pensamento ruim e empertigou-se. Agora.

Quando pôs os pés no tablado a multidão o aplaudiu e lhe dirigiram vivas. Tão jovem esse Gotardo! Um artista. O mestre de cerimônias fez um breve discurso e pediu silêncio. O público obedeceu. Gotardo se preparou, ajeitou os buracos do capuz para enxergar melhor, deu um passo com a perna direita e levantou o machado com as duas mãos. O sol fez brilhar intensamente a lâmina da ferramenta, produzindo um reflexo tão forte quanto sinistro. Com segurança e precisão, os nervos sob absoluto controle, Gotardo desceu o machado e de um golpe só decapitou o condenado.

A multidão ainda manteve o silêncio por poucos segundos após a ação dos braços fortes de Gotardo, para em seguida explodir em aplausos, gritos e assovios ensurdecedores. A turba ficou ainda mais enlouquecida quando Gotardo agarrou a cabeça do infeliz pelos cabelos e a levantou como a um troféu. O trabalho estava feito. Sua estreia fora coroada de êxito.

Na primeira fila uma mulher se manteve em silêncio durante toda a execução. Não tirou os olhos de Gotardo. Emocionada, enxugou as lágrimas enquanto pensava Que grande artista é o meu filho. Nasceu para isso.

 




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