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12 de julho de 2017

O banho

Logo depois de ligar o chuveiro, Celeste confere: a toalha, a esponja, o sabonete líquido, a touca, os chinelos, tudo arrumado. Depois olha para ela, sentada no vaso sanitário, nua, cabeça baixa, o retrato da humilhação. Ajoelha-se na frente dela para ajeitar a touca, e é quando os olhos das duas se encontram. Nos de Celeste há pena, nos dela, súplica, algum agradecimento.

Vem, mãe, a água já está quente — Celeste a levanta pelas mãos com delicadeza e assim, como fazem dia sim dia não, sempre às três da tarde, quando não está tão frio mesmo no inverno, as duas vão caminhando a passos de bebê até o boxe. Um longo caminho, eternidade afora, percorrido com dificuldade e dor. As mãos da mãe agarram com força as da filha, o medo nos olhos.

Celeste olha o corpo mirrado e miúdo da mãe. A pele de tom acinzentado cobre um esqueleto frágil como cristal, em que não há distinção entre seios e ventre: uma só placa seca faz as vezes de abdome, e só se percebe que ali havia tetas pelos dois bicos de cor marrom pendurados na extremidade dos poros. A barriga inexistente não faz supor que ali já tiveram morada sete pessoas — Altair, Jeremias, Rosalina, Dirce, Júnior, Celso e ela própria, Celeste. Mas é certo que todos saíram de lá e agora estão pelo mundo, menos Jeremias, que dorme entre quatro roseiras vermelhas. Celso foi para o Canadá e de vez em quando manda notícias, Rosalina, para o Nordeste, porque adora calor. Os outros cuidam da vida do jeito que a vida permite. Na casa com a mãe só Celeste, a mais velha, a que ficou. A que sobrou.

Começam. A água dói quando bate no corpo da mãe, que geme como criança com a testa encostada nos azulejos. Celeste sussurra Shh, logo acaba. Passa a esponja com suavidade sobre a pele cor de cinza, criando espuma cheirosa que logo se desfaz. Esfrega os braços e sob os braços, as costas, as pernas, os pés e o sexo. É ao toque do sexo que a mãe fecha os olhos e abaixa a cabeça, tamanha é a vergonha. Celeste não interrompe o trabalho, sabe que toda vez é assim, e a dor e a vergonha são também suas. Agora a mãe está limpa. Desliga o chuveiro e a enrola numa toalha. Já seca, a mãe agarra as mãos da filha e as duas mulheres iniciam o penoso caminho de volta, com a mesma dificuldade e a mesma dor. O mesmo medo.

Celeste põe sua mãe na cama, dá-lhe um beijo na testa e sai do quarto sem fazer barulho. Vai descansar um pouco, pensar um pouco. Pensar, por exemplo, em sina,

missão,

permanência e finitude,

compaixão,

vergonha,

varizes,

dores nas costas,

braços que a cada dia perdem a força,

coragem,

alguma alegria,

sonhos adiados,

amor que não fez,

desejos sublimados,

fé nalgum deus ou nalgum santo,

tempo que não volta,

solidão,

medo

e em até quando vai poder, até quando vai poder, até quando vai poder.

 




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