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7 de novembro de 2016

O bumerangue

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Ele apareceu numa noite, perto do Natal, no ano do meu décimo aniversário. Aos dez anos eu já era esperto o suficiente para entender por que meu sobrenome só tinha o de minha mãe. Quando abri a porta ele me disse Olá, Luís ao mesmo tempo em que mexia no meu cabelo. Eu fiquei calado, olhando para aquele desconhecido, e só esbocei reação quando minha mãe apareceu e os dois se abraçaram com força. Sorri ao perceber de quem se tratava e vi que, se se deseja algo com muita força, acontece.

Nos dias seguintes descobri que ter um pai era muito bom. Havia sempre muitas histórias para contar, e um menino de dez anos adora ouvir histórias. De dentro de sua mochila brotavam os presentes mais incríveis: um bumerangue, um chapéu de caubói, uma máscara do Homem-aranha… Eu nunca me cansava de escutar sua voz falando dos lugares por onde andou e o que tinha feito por lá.

Cada detalhe desses dias ficou gravado em minha memória: as rabanadas da noite de Natal, o vestido novo que minha usou, a fantasia do Volverine que meu pai me deu de presente, as risadas dos dois quando se trancavam no quarto, os brinquedos embrulhados em papel colorido que ganhei. Mas o mais bonito de tudo era ver o sorriso de minha mãe e o quanto ela parecia feliz.

Quando acordei no Dia de Reis, minha mãe tinha os olhos vermelhos e já não sorria. Tomamos o café da manhã em silêncio, sozinhos na cozinha. Encontrei o bumerangue embaixo da árvore que tínhamos no quintal. Subi até a varanda e o atirei longe, com raiva; ele também não voltou.

 




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7 de novembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos bumerangue, mãe, pai, sobrenome

               
              
            
                

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