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9 de novembro de 2016

O buraco negro

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Eu poderia jurar que tinha deixado o bebê ali, quietinho no berço, antes de começar a passar o aspirador de pó na sala, mas agora não tenho certeza. O que sei é que ele não está mais aqui. Tudo me leva a pensar que ele foi tragado pelo equipamento, mas isso não tem a menor lógica, porque é impossível que um berço, com um bebê dentro, passe pelo tubo, por mais sofisticada que seja a engenharia japonesa do aparelho.

Desliguei o aspirador e verifiquei que o compartimento do pó estava em completo silêncio. Não tinha cabimento que houvesse um bebê em seu interior. Aproveitei a calmaria e abri o ventre da máquina. A maldita, primeiro, cuspiu um mundo de poeira no meu rosto e em seguida me aspirou como lábios sugando espaguete, apesar dos meus sessenta quilos.

Fiquei surpresa quando constatei que pude entrar sem problemas na barriga do equipamento. Logo em seguida compreendi o mistério do berço e do bebê: dentro daquele aspirador cabia tudo. Logo depois de mim entraram o apartamento onde vivo, o 5º andar inteiro, o prédio e o bairro, todos de uma vez. Agora há um breu absoluto em volta de mim. Tudo me faz pensar que estou num buraco negro, mas isso é apenas fruto de um raciocínio lógico. O raciocínio comum me diz que o mais provável é que eu esteja dentro do aspirador de pó mas, de novo, não há lógica nenhuma nesse pensamento. É melhor continuar a limpeza da casa e ver se o bebê ainda está dormindo.

 




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