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4 de julho de 2020

O céu de dona Marina Ubiratã

Dona Marina Ubiratã, calma, terna e sábia velhinha de 104 anos, conta para as comadres, na conversa de todo fim de tarde, que um dia ouviu seu tataravô narrar a incrível história de um avá-canoeiro de nome Iberê. Carrancudo, olhando feio para um sacerdote que queria batizá-lo, salvando sua alma selvagem e pecadora, e assim alcançar o céu em toda a sua glória e esplendor, o avá-canoeiro Iberê respondeu com voz de trovão:

— Eu não quero o céu. Eu nada espero do céu. Tudo o que tenho, tudo o que sou, devo à terra.

Dona Marina Ubiratã suspira e estica os olhos para os netos, bisnetos e tataranetos que jogam bola e levantam poeira no quintal ao lado da casa de alvenaria onde mora. Ela ouve os gritos e as risadas dos moleques e imagina como eles serão quando forem adultos, se a voz deles soará como um trovão. Depois olha para o céu e prevê chuva. Esse é o céu que abençoa nós. Traz a chuva quando é necessário, e o sol quando é preciso. Esse é o céu — e mais não falou.

Dona Marina Ubiratã nunca viu um avá-canoeiro em pessoa.

 




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