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23 de agosto de 2018

O céu de Dona Marina Ubiratã

Dona Marina Ubiratã, calma, terna e sábia velhinha de 104 anos, conta para as comadres que certo dia ouviu seu tataravô narrar a incrível história de um avá-canoeiro de nome Iberê, que, carrancudo na frente de um sacerdote que pretendia obrigá-lo a se batizar, salvando sua alma selvagem e pecadora, e assim alcançar o Céu em toda a sua glória e esplendor, respondeu com voz de trovão:

— Eu não quero o Céu. Eu nada espero do Céu. Tudo o que tenho, tudo o que sou, devo à Terra.

Dona Marina Ubiratã suspira e estica os olhos para os netos, bisnetos e tataranetos que jogam bola e levantam poeira no quintal ao lado da casa de madeira. Ela ouve os gritos e as risadas dos moleques e imagina como eles serão quando forem adultos, se a voz deles soará como um trovão. Depois olha para o céu e prevê chuva. Esse é o céu que abençoa nós. Traz a chuva quando é necessário, e o sol quando é preciso. Esse é o céu — e mais não fala.

Dona Marina Ubiratã nunca viu um avá-canoeiro em pessoa.

 




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23 de agosto de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos avá-canoeiro, céu, velha

               
              
            
                

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