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14 de março de 2017

O cheiro de gasolina

Meu avô Américo tinha cheiro de gasolina na pele. Sentado como um comandante na velha poltrona de couro puído, consumia horas organizando seu exército: pincéis, escovas, lixas, tesourinhas e pinças para depilar narizes e orelhas, cortadores de unha e palitos de fósforo. Colocava-os em fila, dava ordens, planejava contendas, definia estratégias. Calçava botas militares e perscrutava a redondeza com seu velho binóculo sem lente. O menino que eu era ficava surpreso com sua capacidade de pensar e executar os ataques ao inimigo. E com seu cheiro de gasolina.

Naquele domingo, ele chamou minha avó Elisa para mostrar-lhe o novo pelotão que criara com os guardanapos de papel. Ela depositou na mesinha do lado a bandeja de bolinhos de polvilho e aprovou com a cabeça e um sorriso a fila de soldadinhos brancos, um depois do outro, como pipocas alinhadas e obedientes. Não deixou, como fazia sempre, de fingir que lhe dava uma bronca por dedicar tanto tempo a seu exército. Ele, envergonhado, encostou a cabeça em seu peito e, sussurrando palavras de amor, deixou-se ficar ali, a cabeleira branca entre os seios murchos da esposa. Com o carinho das mãos enrugadas da mulher, dormiu profundamente e não acordou mais. Foi sua maneira, doce e simples, de dizer-lhe adeus. Como se tivessem combinado, a avó Elisa também nos disse adeus pouco tempo depois.

Na passagem dos anos descobri um detalhe surpreendente nos objetos que meu avô usava como soldadinhos. Todos eles tinham, em algum canto, em alguma brecha, em alguma ponta, a letra E esculpida. E de Elisa. Era a sua maneira de mostrar que amava a mulher e que, mesmo absorto em suas brincadeiras militares, estava sempre pensando nela. Foi a sua namorada por mais de setenta anos.

Os domingos de agora também são uma festa quando meus netos vêm me visitar. Sento-me na mesma velha poltrona de couro, calço as botas e uso o mesmo binóculo sem lente para mostrar a eles onde os inimigos estão escondidos e qual é a minha estratégia para derrotá-los. Os soldados enfileirados, pipocas brancas e obedientes, trazem de volta à sala o cheiro de gasolina de antigamente. Esse saudoso, doído e muito ausente cheiro de gasolina.

 




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14 de março de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos avô, cheiro, gasolina, neto

               
              
            
                

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