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13 de setembro de 2016

O cheiro de peixe

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Foi só abrir a porta do apartamento e o cheiro de peixe podre golpeou minha cara como uma bofetada. Corri até a cozinha para verificar se tinha me esquecido de pôr o lixo pra fora. Não era isso. A lata estava vazia, mas no fundo tinha uma mancha engordurada e escura. Com cara de nojo esfreguei a nódoa com escova, detergente, amônia e álcool, tudo ao mesmo tempo, e enxaguei com água quente. O mau cheiro continuou. Abri a janela pra entrar ar fresco e ventilar a área. Não resolveu. Sem pensar muito pus as luvas de borracha e comecei freneticamente a esfregar tudo o que encontrava: os azulejos, o forno, o fogão, a pia, o chão, os armários. No fim, restou um odor misturado de limão, sabão em pó e o cheiro, aquele de peixe podre. Será a geladeira? Abri a porta, retirei tudo o que havia dentro e limpei, limpei, limpei. O cheiro não saiu.

Meu marido entrou na cozinha no exato momento em que comecei a colocar tudo de volta no refrigerador. Vi que ele olhou com estranheza para as coisas espalhadas sobre a mesa. Perguntou O que tem pro jantar? Eu parei um instante, incrédula: Mas você não percebeu o cheiro horrível que tem aqui? Ele não respondeu, deu de ombros e foi pra sala ver televisão. Eu estava quase sufocando com aquele odor, minha garganta fechou e era difícil respirar ali dentro, mesmo com a janela aberta.

Soa o telefone. Espero, mas ninguém atende. Tiro do gancho no terceiro toque. Era minha mãe. Não posso falar agora, estou quase louca pelo mau cheiro que tem aqui na cozinha. Preciso descobrir de onde isso vem. Ela sempre foi muito prática: Isso acontece porque você deixa a casa muito tempo sem uma faxina pesada. Limpezinha leve é pra todo dia, minha filha, mas pelo menos a cada duas semanas você tem que lavar a casa inteira, até as cortinas e os lustres. Tem que esfregar tudo, com alvejante, detergente neutro e muito muque. Tem uma marca nova de alvejante que… Eu estava sem muita paciência: Mamãe, você parece um anúncio de televisão. E desliguei sem me despedir.

Olhei em volta e aspirei: o cheiro ainda estava lá, maldito! Meus olhos começaram a marejar pela ação do amoníaco e dos outros produtos que tinha usado. Queria continuar a limpar, mas minha vista estava nublada e a garganta, seca. Será possível que eu vá morrer assim, com luvas de limpeza? Que humilhação!

Fui até a janela e abri a boca, buscando ar fresco. Olhei pra cima e vi a vizinha do quinto com a cabeça pra fora, os olhos arregalados. No mesmo instante a do terceiro abriu a janela afobada e buscou ar como náufrago desesperado. A do sexto estava encostada no batente, com o peito arfante e os olhos vermelhos, segurando o cabo da vassoura numa das mãos. Todas nós tínhamos a boca aberta, como se quiséssemos colher mais ar do que o pulmão pudesse aguentar. Parecíamos peixes fora d’água. Nos olhamos em silêncio e compreendemos. Não é preciso dizer palavra quando todas sentimos o mesmo cheiro de peixe podre dentro de casa.

 




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