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29 de setembro de 2019

O choro de minha mãe e a música do riacho

mães choram

descobri muito cedo

 

mães trabalham cuidam zelam

e também choram

 

sentada na beira da minha cama

minha mãe chorava

e eu fingia dormir

não conhecia naquele tempo as palavras que se dizem

às mães que choram

para que deixem de chorar

 

as lágrimas caíam pelo rosto branco

de minha mãe

molhavam suas pernas e seu vestido de flor

 

não havia esgar

nem gesto bruto

ou soluços desesperados:

os braços quietos as mãos no colo

e o pranto rolando incontido e manso

no rosto de minha mãe

 

vendo minha mãe chorar

eu oscilava entre a vigília e a pena

mudo menino

que não sabia o que dizer

à mãe que chorava

 

e assim cresci vendo minha mãe chorar

 

estudei a vida e aprendi palavras

para falar no caso de ter por perto

uma mãe que chora

mas não pude dizê-las à minha

porque cedo deixei a casa

não tenho mais a cama que eu tinha

nem a borda

onde minha mãe se sentava e chorava

 

hoje quando perco o sono

apuro o ouvido

e escuto o riacho perto da janela

do meu novo quarto

 

a música do riacho é um choro

parecido com o de minha mãe

na borda da minha cama de antigamente

 

permaneço

entre a vigília e a pena

ouvindo a música do riacho

como se de minha mãe fosse aquele choro

 

mães choram

riachos cantam

a ausência e seu avesso.

Dói.

 




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29 de setembro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Poesia choro, mãe, mães, música, riacho

               
              
            
                

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