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21 de abril de 2017

O cinema

Antigamente, num tempo que quase me foge à memória, meu pai costumava morrer duas vezes por dia: uma por volta das duas horas da tarde e outra em torno de sete da noite. Minha mãe sempre chorava muito, desconsolada, e, braços para o alto, jurava, entre gritos e soluços operísticos, que não descansaria até que a morte de seu adorado esposo fosse vingada. No total, eram duas horas de drama do qual participava a família inteira. Eu me ocupava de limpar o sangue espalhado no chão, deixar as facas brilhando e remendar as roupas que, entre uma morte e outra, se rasgavam. Minha irmã menor era encarregada de trazer as flores para enfeitar o caixão onde nosso pai jazia. Depois de tudo terminado, carregávamos o caminhão e ganhávamos a estrada, na direção de outro povoado naquelas redondezas esquecidas do mundo. Eram tempos bons. Logo chegou o cinema e meu pai nunca mais morreu. Nós também não.

 




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21 de abril de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos cinema, drama, povoado

               
              
            
                

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