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9 de março de 2017

O contista e os meninos

O contista conta contos sentado no chão, as costas apoiadas na parede. A enorme barba branca desce solene sobre a túnica cor de palha e quase chega aos joelhos. Os meninos o rodeiam, também sentados no chão, os olhos fixos nos olhos dele. O contista é cego, não vê os meninos nem a rua ali na frente. Apenas sente, intui que estão lá. Seus olhos vazios contemplam as paisagens maravilhosas das histórias que saem de sua boca. Os meninos estão muito quietos, só o velho se move, gesticula, imita a voz dos personagens de seus contos, faz suspense e pausas dramáticas, descreve os cenários com riqueza de detalhes. Os garotos sabem que, se fizerem qualquer barulho ou movimento, as palavras do contista se quebrarão e eles ficarão sem saber o final do enredo. Por isso evitam se mexer, mas seus olhos voam junto com os olhos do velho até os distantes reinos das lendas que ele narra. Ao redor do grupo, o barulho da cidade e sua gente que passa apressada, os pregões dos vendedores ambulantes, as buzinas dos carros, os xingamentos, as conversas. Nada disso atrapalha: o velho contista criou uma bolha imaginária para si e sua pequena audiência, onde a vida cotidiana não entra e o oco no estômago é esquecido pelos meninos, que não têm olhos e ouvidos para mais nada, só para as histórias. Quando o conto chega ao fim, todos aplaudem e apertam a mão do velho, agradecendo pela viagem que acabaram de fazer. Logo voltam a perambular pela calçada, pedindo esmola ou licença para engraxar os sapatos dos transeuntes. Alguns deles param na entrada do metrô e começam a cantar uma canção, de olho na lata que colocam na frente dos pés. Esperam ouvir logo o tilintar de alguma moeda jogada lá.

 




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9 de março de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos contista, histórias, meninos

               
              
            
                

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