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9 de agosto de 2016

O crime e o castigo

chamasDepois da violenta bofetada, no instante preciso em que apartava a mão do rosto de sua mulher, o telefone tocou. Um arrepio percorreu sua espinha: lembrou-se de que tinha jurado nunca mais fazer isso. E não tinha feito até então, não por falta de vontade ou oportunidade. Sua mulher o provocava, frouxo, desempregado, incompetente, brocha!, e ele se trancava no quarto até a raiva passar. Tinha que segurar com força o braço direito para impedir que ele, como se dotado de iniciativa própria, fosse para o alto e descesse no rosto daquela que o desafiava a toda hora, a todo maldito momento. Era para isso que ia aos Maltratadores Anônimos às terças-feiras: ele precisava aprender a se controlar.

Hoje ele teve uma recaída. E o som do telefone o surpreendeu, no momento em que consumava o ato. Atendeu, aterrorizado. Do outro lado, uma voz tranquila e suave:

— Nós sabemos o que você acabou de fazer. Já prevíamos que você faria de novo. Você é um estúpido. Agora prepare-se para pagar o preço pelo seu crime. E desligou.

Ele saiu esbaforido porta afora, desceu a escada de dois em dois degraus e ganhou a rua. Foi surpreendido por um jato de gasolina sobre suas roupas e, antes que pudesse fugir, ouviu quando alguém riscou um fósforo. Depois, nada além da dor, asfixia, fumaça e seus próprios gritos. Nas janelas, os vizinhos assistiam em silêncio ao espetáculo do corpo em chamas. Ninguém esboçou reação.

— A nova lei contra a violência de gênero está funcionando como nunca diz a delegada numa entrevista, enquanto o telejornal mostra, ao vivo, as imagens do sacrifício público —, no último ano já contabilizamos duas bofetadas e três insultos contra mulheres, todos exemplarmente punidos. É dessa maneira que o país tem que proceder para avançar na luta contra a barbárie de gênero e a violência doméstica.

 




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