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6 de outubro de 2017

O dançarino solitário

Quando a orquestra começou a tocar música mais lenta, os jovens casais aproveitaram para descansar e refrescar a garganta. Na pista vazia restou Genésio, dançarino solitário, muito compenetrado dentro de seu vestido vermelho, as costas nuas cobertas por um xale de seda preta. Era a festa anual da padroeira e Genésio nunca faltava. Gostava de rodopiar pelo salão, mesmo sem companhia, como agora. Agora há o som de um bolero no ar e muito espaço para ser preenchido por seu corpo magro e sinuoso. Genésio dança. Embalado pela música dolente, desliza devagarinho, um braço enlaçando a própria cintura e o outro estendido para a frente, pousado delicadamente sobre o ombro de um parceiro imaginário. Mantém os olhos baixos, não quer estragar sua noite de sonho vendo os risinhos zombeteiros dos demais frequentadores do baile. Se levantasse o rosto, Genésio talvez percebesse que Josué, o vendedor de loteria, o segue discretamente com olhos doces e sorridentes, balançando o corpo ao compasso da canção.

 




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6 de outubro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos baile, corpo, dançarino, olhos, salão

               
              
            
                

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