Close

6 de outubro de 2014

O dono das palavras

Era um escritor que nunca vendeu um livro sequer. Atolado em dívidas, perdeu tudo o que tinha, inclusive sua casa. Virou morador de rua. Alojou-se na marquise de uma livraria e ali passava os dias, esmolando moedas. Sofria nas noites em que o vento soprava forte. Começou a cometer desvarios: dizia seus poemas em voz alta, às vezes se comovia com as palavras que declamava, fazia gestos largos, chorava. Depois sentava-se novamente na calçada e amaldiçoava a má sorte. Em seu delírio olhava a vitrine da livraria, via os livros ali expostos e dizia às pessoas que passavam: “Eu escrevi aquele livro!”. Ninguém lhe prestava atenção. “Eu sou o dono daquelas palavras!”, balbuciava para si mesmo, com voz débil.

Já que eram suas aquelas palavras, decidiu que as teria de volta. Começou a chamá-las uma a uma por debaixo da porta da livraria. A primeira foi “cobertor”, para as noites de inverno. Passou depois para “copo” e “vinho” e em seguida fez sinal para que viessem um “prato”, um “garfo” e a “comida”. Quando percebeu que estava tudo dando certo e já tinha domínio do truque, ele convocou o “uísque”, o “queijo” e o “charuto”. E assim os dias foram passando.

A vida confortável do escritor-mendigo logo começou a incomodar as pessoas que circulavam por ali. Passaram a insultá-lo com palavrões e adotaram atitudes hostis. Ele se rebelou contra os achaques que recebia e não teve dúvida em se defender da maneira que conhecia: com palavras. Chamou para si a “imortalidade” e, com uma “bomba”, varreu a cidade do mapa. Dias depois foi visto na cidade vizinha, sob a marquise da maior livraria do local, tomando “sol” em pleno inverno e saboreando “caviar” às colheradas.




Tags:,

6 de outubro de 2014 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos abandono, palavras

               
              
            
                

Deixe um comentário