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25 de dezembro de 2017

O duplo

Diziam que em Santa Helena, pequena cidade não muito longe de onde vivo, morava um homem idêntico a mim: mesma idade e altura, cor de olhos e cabelos, tom muito branco de pele e maneira de andar. Iguais, também, o hábito de tomar sorvete nas noites de verão e a maneira de cumprimentar as pessoas na calçada. A única diferença, diziam, era a nossa ocupação: eu era professor universitário e o outro, o homem igual a mim, um porteiro de edifício. “É um duplo você”, diziam e repetiam, “que só o que sabe fazer é abrir e fechar portas para quem entra e sai daquele prédio. O resto é igual”.

Não sei se o outro eu era curioso, mas eu sim. Decidi que um dia iria até Santa Helena para vê-lo de perto. Que raro existir duas pessoas tão iguais! “Será que tenho um irmão gêmeo?”, eu pensava e ria baixinho diante de tamanha improbabilidade. “É idêntico a você, como duas gotas de água”, diziam, insistindo para que eu fosse comprovar pessoalmente a semelhança. “Vamos ver, vamos ver, um dia eu vou lá”, eu respondia, deixando clara minha desconfiança.

Depois de alguns dias, o assunto ficou esquecido e eu não pensei mais nele. Passava da meia-noite quando ouvi batidas na porta. Não abri de imediato. Perguntei quem era e minha própria voz me respondeu: “Vim de Santa Helena para conhecer você”. Um arrepio percorreu minha nuca e senti um medo terrível. Resisti à tentação de espiar pelo olho mágico e, em vez disso, dei outra volta na chave e passei mais uma tranca. Depois corri para verificar se as janelas estavam bem fechadas. Parei no meio da sala, esperando ouvir novas batidas na porta, mas só houve silêncio. O visitante noturno, ao que parece, tinha desistido e ido embora, exatamente como eu mesmo teria feito em situação idêntica.

 




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25 de dezembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos duplo, idêntico, semelhança

              
            
  1. Caro Sérgio, sua história deixou-me perplexa. O narrador em primeira pessoa é suspeito, pois ele narra uma experiência pessoal sui generis que poucas pessoas têm a chance de vivenciar.Ele ouve alguém chamá-lo com o timbre de sua própria voz .. O medo o domina e sua reação é evitar o confronto com o desconhecido, embora houvesse tanta semelhança na voz do visitante. Assim ele sem responder dá outra volta na chave e tranca as janela para não ter contato com o desconhecido. O desfecho é desconcertante para o leitor desavisado. Afinal, não é comum saber que alguém pode ter um sósia não só na aparência, mas na essência do ser. Esta abordagem de um tema recorrente na literatura suscita a imaginação do leitor que absorvido pela leitura tem sensações de algo sobrenatural que aguça sua curiosidade e faz sua intuição decolar. O desfecho do relato é intrigante com a nítida impressão que o narrador sentiu-se preso numa teia que o pôs em pânico diante do desconhecido. O gesto de dar outra volta na chave e travar as janelas são reações humanas diante de uma ameaça que ele não consegue mensurar. O desfecho do relato é desconcertante, pois dominado pelo medo, ele evita ficar frente a frente com seu suposto sósia, e até não procura vê-lo pelo olho mágico. Além disso a frase final revela a causa real do medo que o dominava: O visitante ao falar tem o timbre de voz idêntico ao do narrador, pois ele afirma ter ouvido sua própria voz. A frase final do texto revela a natureza psíquica da narrativa como se os fatos fossem fruto da imaginação do eu narrador que constata a retirada em silêncio do visitante e que era exatamente como ele teria feito. De forma analítica, pode-se afirmar que o tema abordado seria a divisão do eu ou dupla personalidade. Há na sua narrativa, Mário algo que nos remete ao pensamento de Franz Kafka. No livro Metamorfose (Verwandlung), Herr K é vítima de depressão que o faz sentir-s transformado em um inseto asqueroso. Seu sentimento de autoflagelação é causado por seu pensamento doentio ao sentir-se incapaz de assumir responsabilidade pelo bem estar dos pais que ele como primogênito da família judaica deveria assumir. É evidente que o eu narrador do seu conto não tem a mesma dimensão psíquica do personagem de Metamorfose. Mas o conflito do eu consigo mesmo tem uma relação similar com o aniquilamento da alma humana quando se perde a capacidade de discernir entre a realidade e a causa da aflição e medo que dominam o ser humano.

    • Célia, brilhante análise do meu texto! Adorei o que você escreveu, a forma como você abordou o texto. O conteúdo é exatamente sobre o medo do desconhecido, ou antes, o medo do conhecido que vai nos revelar o desconhecido. Porque o narrador, se tivesse coragem de abrir a porta, iria se deparar com um indivíduo igual a si mesmo mas, mesmo assim, desconhecido porque não era “ele”; era “outro”. Aí ele não teve coragem de enfrentar esse “conhecido-desconhecido”. Muito obrigado por sua leitura atenta e pelas brilhantes observações. Abraço.

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