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30 de outubro de 2014

O encontro no parque

sombra

Sempre que nos encontramos nas tardes ensolaradas do parque sei que ela fica feliz. Não dizemos palavra, não nos tocamos, mas sei que ela exulta quando me vê chegar tão perto. Nessas tardes de verão, a despeito do calor, ela está sempre vestida de negro, elegante e discreta. Ficamos frente a frente, saboreando o prazer que a presença de um causa no outro. Fazemos movimentos simultâneos, como se lêssemos nosso pensamento. Se eu dou um passo, ela também dá. Se viro à esquerda, ela faz o mesmo. Se paro, ela também se detém. Nós dois, ao mesmo tempo, em perfeita harmonia – bailarinos num glorioso pas-de-deux! Às vezes eu também a imito, para fazer um agrado à sua figura tão feminina e delicada. Sem que ela perceba, eu a olho enquanto passeamos pelo parque, procurando descobrir algo que ainda não saiba, algum segredo, alguma mágoa, uma desilusão, talvez. Nada. Ela é tão transparente e cristalina que, ao olhá-la, penso estar vendo minha própria alma. E da própria alma, sabe-se, nada é desconhecido.

Quando penso que ela já se cansou de caminhar, diminuo o passo e a conduzo para um lugar onde possa suavizar um pouco a fadiga. Vejo um banco vazio e faço uma pequena contorção sob o sol, de modo que minha sombra finalmente possa se sentar e descansar.




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