Close

23 de setembro de 2016

O encontro

encontro

Ontem Joaquim deu sinal de vida, quase trinta anos depois daquela manhã de outubro em que se despediu de mim, como costumava fazer antes de sair para o trabalho. Naquele dia eu esperei que ele voltasse, e no outro também, em vão. No terceiro compreendi que teria que conviver com sua ausência. A carta que chegou ontem rompeu décadas de silêncio. Ele queria me ver.

No ônibus, a caminho do centro para encontrá-lo, contabilizei sentimentos díspares: compaixão, desprezo, enfado, dor pela ausência, ressentimento, uma tristeza infinita. Que o encontro fosse breve e indolor, era o que eu desejava.

Não o reconheci de imediato, tão velho estava. Ele se levantou da mesa do café e me recebeu com um sorriso. Percebi que mancava de uma perna. Ao ver seu rosto tão próximo, percebi, aliviado, que o meu tinha mudado bem menos. Uma vaidade sem sentido e em tudo descabida naquela hora, dada a circunstância.

Conversamos com calma, sem atropelos. E nos escutamos, também com serenidade. E, como operários zelosos de seu ofício, colocamos pedra sobre pedra até edificarmos sobre o vazio. É difícil preencher uma lacuna de quase trinta anos. Mesmo assim, não fizeram falta explicações concretas sobre seu desaparecimento e seu silêncio de quase trinta anos. Isso já não importava mais. Para mim bastava ter seus olhos sobre os meus e perceber neles algo parecido com sinceridade e desejo de ser perdoado.

A conversa prosseguiu por horas, mas durante todo o tempo em que estivemos juntos fui incapaz — e ele não deixou de notar, com resignada decepção — de chamá-lo novamente de papai.

 




Tags:, , , , , ,
               
              
            
                

Deixe um comentário