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21 de agosto de 2017

O enigma do cemitério

“Vamos ao cemitério hoje”, minha mãe avisou. Ela me vestiu e penteou como se fôssemos para uma festa. Eu nunca gostei do vestido de organdi com gola de renda, mas ela me disse que eu ficaria “mais mocinha” com ele, então concordei. Aos dez anos, ficar “mais mocinha” é tudo que uma menina quer.

Enquanto eu passeava entre as lápides olhando as fotos dos mortos, minha mãe se distraía com os enfeites e ornamentos dos túmulos, alguns de ouro, outros de mármore. Os cemitérios são lugares muito semelhantes aos museus: silenciosos e cheios de coisas que despertam a atenção. É muito fácil entrar acompanhada num deles e, de repente, ficar só. Cada visitante é chamado por um interesse diferente e, de repente, sem muito esperar, a gente percebe que ficou sozinha. Eu fiquei sozinha. Minha mãe desapareceu na virada de esquina de uma alameda e eu permaneci olhando fotos e nomes de mortos.

O nome num túmulo novo, recém-inaugurado, chamou minha atenção: Maria Cecília Abrantes. Fechei os olhos como se tivesse a vista embaçada e os abri vagarosamente. Olhei de novo o nome na placa fixada na parte superior da lápide. Maria Cecília Abrantes é o meu nome. Continuei lendo: “Falecida em 17 de setembro de 2017”. Era o dia de hoje! Havia também uma foto, e nela eu aparecia com meu vestido de organdi e gola de renda.

Fiquei parada na frente do túmulo, com dificuldade para entender o que via. Tudo parecia significar que eu tinha morrido, mas como, se estou aqui? Quando olhei ao redor procurando minha mãe, vi que ela saía apressadamente por uma portinhola, guardando alguma coisa dentro do decote. Estava de cabeça baixa, como quem sai de um velório. Passou por mim e nem sequer me olhou.

 




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21 de agosto de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos cemitério, lápide, mãe, mortos

              
            
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