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27 de setembro de 2017

O enquadrado

Acordou com o sol e bocejou com o rosto grudado na janela. Viu que o mundo marchava a seus pés e mais além de seus olhos, alheio ao que ele pudesse desejar. Com a força de um sussurro balbuciou: “Não acredito!”.

Preparou café forte com muito açúcar e bebeu de um gole só. Olhou o fundo da xícara e, em voz alta, mesmo sabendo que estava sozinho, disse: “Não acredito!”.

A rua movimentada, ele no meio. Gente, ruídos, ombros se tocando e se esquivando, celulares nos ouvidos, palavras desconexas, fumaça, carros, buzinas. A cidade pulsa. Puxou ar para os pulmões, as mãos nos joelhos, ergueu a cabeça e soltou o grito: “Não acredito!”. Ninguém lhe deu atenção.

No fim do dia dorme, exausto. Sonha que acorda, que olha pela janela e percebe que o mundo gira apesar dele, que toma um café forte com muito açúcar, que sai para a rua e se mistura à multidão, que em volta dele há uma infinidade de espelhos que o multiplicam sem que isso faça dele uma figura mais relevante, que no meio da balbúrdia diz com voz tranquila: “Eu acredito!”, que o aplaudem.

 




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27 de setembro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos acredito, não acredito

               
              
            
                

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