Close

3 de outubro de 2016

O enterro do coronel Hermes

hermes

Era o dia de seu enterro. O problema é que ele se sentia mais cheio de vida que nunca. Havia alegria em seu coração, riso em sua alma, amor e bondade em seus olhos, fora a enorme vontade de continuar vivo por muitos anos ainda. Algumas pessoas, porém, pensavam diferente: sua família e seus amigos decidiram que a idade já representava risco considerável e que era hora de ele dizer adeus a esta vida. O velho Hermes resistia.

Tentaram convencê-lo mostrando as flores que chegavam em quantidade surpreendente; diziam que quem recebe tantas flores assim está longe de ser insignificante, ele tinha mais é que agradecer e aceitar o que já estava determinado. Falaram também do caixão, com forro de cetim, perfumado e confortável. Além disso, o evento já tinha sido amplamente divulgado na cidade e os funcionários da casa funerária cuidaram de providenciar baldes e mais baldes de café e muitos maços de cigarros para os que comparecessem, tudo já incluído no preço e por isso ofertado gratuitamente. Não havia mais como voltar atrás.

Nada disso conseguiu convencê-lo a aceitar que tinha chegado a sua hora. Andando com agilidade pela casa toda, Hermes argumentava que todos estavam cometendo um grande erro, Olhem para mim, cáspite, eu tenho cara de quem vai pendurar as botas? Por estas veias ainda corre muito sangue quente, dizia, arregaçando a manga da camisa e mostrando os braços vigorosos. Ninguém fazia caso. Era como se ele não existisse.

Levaram-no à força ao banheiro e lhe deram um demorado banho quente. Vestiram-no com seu melhor terno, o do casamento, pentearam seus cabelos e puseram gomalina em seus austeros bigodes de coronel. Ele reclamou, disse que nunca tinha penteado os cabelos para o lado esquerdo, ninguém me conhece nesta família, esses óculos são para ler, esses sapatos me dão calos nos pés. Ouvidos moucos, todos.

Colocaram-no no caixão como se deposita um bebê no berço, com todo cuidado. Pouco depois chegaram as carpideiras. Tomaram café e fumaram uns quantos cigarros antes de darem início à sessão de choro. Ao coronel, nem sequer uma olhada. A família tomou posição. Dentro do ataúde, Hermes ainda praguejava.

Enterraram-no às quatro da tarde, debaixo de um sol abrasador. Vivo.

 




Tags:, , , ,
              
            
  1.     
                        
              
            
                

Deixe um comentário