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1 de abril de 2016

O esbarrão

esbarrão“A construção de um lindo bordado de palavras”, era assim que o escritor esforçado definia o seu ofício. Era assim também que se escondia na retórica oca dos termos que escolhia a dedo. Jamais punha no papel “hoje o sol está brilhando como nunca”, vulgar demais, prosaico demais. Melhor assim: “Hoje os raios deslumbrantes do astro-rei banham este maravilhoso dia como se fosse a primeira vez”. Estava convencido de que, dessa maneira, embelezava a realidade e prestava um serviço de inestimável valor a seus leitores. Além disso, acreditava ele, gozaria de maior prestígio entre seus pares, que o veriam como um “artesão da palavra”.

Os leitores sentimentais não se faziam de rogados: disputavam a tapas os livros do escritor dedicado, que chegavam às livrarias com a aura de best-seller. A cada lançamento, um incontestável sucesso.

Horácio era um escritor esforçado. Aparecido, seu leitor sentimental mais fiel e entusiasmado, aquele que chorava com as imagens cheias de beleza, as metáforas e as palavras proparoxítonas encontradas nas páginas que devorava com avidez.

Um dia os dois se encontraram por acaso. Um esbarrou no outro na rua movimentada do centro da cidade. Os livros que Aparecido carregava caíram e ele se abaixou para pegá-los. Não se reconheceram. O fato de estarem no mesmo local e à mesma hora era muita coincidência para ser levada a sério, isso só acontece uma vez em cada mil, e é claro que não seria hoje. Não deram maior importância ao caso. Livros recolhidos, e antes de cada um seguir seu caminho, trocaram breves palavras:

– Imbecil!, disse o escritor que bordava lindas palavras.

– Seu puto distraído, disse o leitor que chorava com as metáforas.

 




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