Close

15 de maio de 2017

O experimento

Há dias venho acompanhando pelos jornais, com interesse e calafrio na espinha, um caso sinistro. Dizem as notícias que o Instituto de Medicina Legal de uma famosa universidade europeia utiliza cadáveres de adultos e crianças para simular acidentes automobilísticos e, assim, melhorar o design e segurança de poltronas, cadeiras infantis para carros e os cintos de segurança dos veículos. Para os testes, os técnicos do instituto trabalham assim: pegam um defunto, metem-no num modelo Fiat, ou Ford, ou Volkswagen, ou até mesmo num Mercedes, dependendo do seu status social, suponho, e fazem com que o carro bata, em alta velocidade, contra um muro de concreto. Depois tiram o cadáver de dentro do veículo e contam a quantidade de ossos quebrados.

Os diretores do instituto vieram a público para confirmar a veracidade dessa informação e dizer, com cândidos sorrisos, que, graças a esses experimentos, muitas vidas têm sido salvas. Um catedrático em Teologia e Ética da Universidade de Toulouse, um tal de Jean François Le Pen — divulgo seu nome para que nunca assistam às suas aulas —, defendeu essa prática, destacando os benefícios para a segurança de milhares de condutores. E, em Washington, o afamado ortopedista Robert Park — também digo seu nome para que ninguém, nunca, entregue o próprio esqueleto para ser examinado por ele — louvou a iniciativa do instituto, dizendo que esses testes permitem saber com exatidão quais partes do corpo se esfacelam, e de que maneira, quando um carro se choca contra o muro da vergonha a cento e cinquenta quilômetros por hora.

De minha parte, aviso que prefiro morrer por falha no cinto de segurança a salvar-me à custa de maltratar um cadáver, mesmo que se trate de um cadáver completamente morto. Com os defuntos não se brinca. Deveriam usar manequins para esses testes. Ah, é verdade, os manequins não são tão excitantes quanto um corpo de verdade, ainda que sejam capazes de urinar e chorar como qualquer ser vivente. Por exemplo, dizem os entendidos em acidentes que o manequim mais avançado para esse tipo de experimento de choque é o Furyo III, mas, em que pese sua perfeição, ainda não consegue se comportar como um ser humano. Não me admira. É preciso ter coragem e muito estômago para querer ser como um de nós.

 




Tags:, , , ,
               
              
            
                

Deixe um comentário