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17 de novembro de 2014

O falecido, sua mulher e o tiro que saiu pela culatra

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O anúncio era muito claro e, por isso mesmo, inacreditável: “Aluga-se apartamento no Jardim Europa. 200m², 4 suítes, 1 por andar, todo mobiliado. R$ 200. Tratar com a proprietária.”. Fechei o jornal com a certeza de que se tratava de algum golpe publicitário. No dia seguinte, lá estava o mesmo anúncio, exatamente com as mesmas palavras. Decidi investigar e escrevi um e-mail para o endereço indicado, mostrando-me interessado na oferta.

A resposta veio no mesmo dia: “Se for de seu interesse, informo que o imóvel pode ser visitado todos os dias das 15 às 18 horas. Por favor, avise-me quando pretende vir. Atenciosamente, Maria Alice da Costa Prado.” Entre surpreso e excitado, devolvi a mensagem: “Visitarei o imóvel na próxima quarta-feira, dia 18. Obrigado.”

No dia da visita fui recebido por um solícito corretor, que me acompanhou por todo o apartamento fazendo comentários sobre a excelência da planta, a beleza da pintura, a qualidade dos móveis. Eu não tinha como discordar. Quando voltamos à sala lá estava ela, dona Maria Alice da Costa Prado. Elegante, altiva, de beleza clássica e vestida com apuro e discrição, era uma aristocrata, como o nome deixava presumir. Sua voz tinha delicadeza e timbre agradável.

– E então, o apartamento lhe agradou?

– Muito. Gostaria de confirmar o preço do aluguel.

– São duzentos reais, conforme informado no anúncio.

– Não há nenhum equívoco nisso? O aluguel de um apartamento desse porte vale, no mínimo, vinte vezes mais.

– Nenhum equívoco. São mesmo duzentos reais, senhor… Arnaldo? – consultou meu nome num caderninho.

– Sim, Arnaldo.

– Este apartamento faz parte da herança de meu falecido marido. Fiquei viúva há pouco mais de um ano. Só soube da existência deste imóvel quando o advogado abriu o testamento. Já reparti todos os outros bens com meus filhos, de modo que resta somente este. E, pela vontade de meu finado marido, ele deve ser alugado.

Eu ouvia atentamente. Ela continuou de forma pausada, não se importando nem um pouco em contar detalhes pessoais a um desconhecido.

– Meu marido sempre foi um homem bom, pai exemplar, esposo dedicado. Essa era minha impressão, até a abertura do testamento, quando então soube que havia este imóvel e o destino que devia ser dado a ele.

– E que destino é esse?

– No testamento estava muito claro: este imóvel deve ser alugado e os rendimentos doados integralmente para a senhorita Eunice Araújo dos Santos, aquela que, segundo meu falecido marido, “entregou sua juventude para me fazer feliz nos últimos trinta anos e que agora, com meu falecimento, ficará em dificuldades financeiras. O aluguel do imóvel, portanto, garantirá sua sobrevivência.”.

Dona Maria Alice da Costa Prado sorriu triunfante:

– Assim quis meu marido e aqui estou eu, cumprindo seu último desejo. Vou alugar este apartamento por duzentos reais. Quer assinar o contrato agora?

 




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