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12 de setembro de 2016

O filme

filme

Se fosse o caso, alguém poderia tirar uma fotografia ou fazer um filme e lá estaria eu, flutuando na busca vã de equilíbrio, girando no ar para não cair de costas. Não quero baixar e me esborrachar de frente, que isso iria estragar minha gravata, que é nova e preciso dela no meu trabalho. Viro-me à esquerda, pelo menos faço força para isso, mas não consigo e o golpe lá embaixo é iminente. O chão está molhado, há terra, barro, óleo e um cheiro insuportável de borracha queimada. Meu traje inteiro, incluindo a gravata, ficará prejudicado, e não há seguro para trajes, claro que não há, é perda total na certa. Meu corpo segue baixando cada vez mais veloz, mas o esperado baque contra o chão não acontece. Eu atravesso a superfície e continuo descendo.

A matéria que atravesso agora é macia e, apesar do insólito dessa situação, não posso deixar de pensar em massa de bolo, daqueles que minha mãe fazia. Passam por minha memória todos os bolos que já comi na vida: os de aniversário de menino, o da primeira comunhão, o da formatura, aquele de quando completei quarenta anos, o do meu casamento — os capítulos de minha história ordenados por datas comemorativas e bolos.

Continuo em queda livre no meio da massa farinhenta, mas, no lugar do recheio de leite condensado, o que vejo e sinto são recordações de texturas e cores variáveis, algumas dulcíssimas, outras amargas, e outras que não consigo identificar. Sinto frio. Alguém parte o bolo, talvez minha mãe. Não vamos esperar o seu pai, não vale a pena, você sabe como ele é, diz ela, estendendo para mim um pedaço grande. Provo e faço cara de nojo: amargo! Engulo o bocado a contragosto enquanto minha mãe prossegue, ele não vai vir, nem adianta esperar. Mariana, vejo agora, nem esperou o padre perguntar e foi logo dizendo sim! As crianças, quando as vi pela última vez, brincavam na frente de casa. Eu saía para o trabalho e elas vieram me abraçar, tchau, papai, até mais tarde.

Meu corpo segue baixando e o cheiro insuportável de borracha queimada invade minhas narinas mais uma vez. Um estrondo, fumaça, barulho de freios, metais retorcidos, gritos e meu corpo descendo, descendo. Agora já não me importam mais meu traje nem a maldita gravata.

 




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