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6 de janeiro de 2016

O fio

velhosTodas as noites, quando entro em casa de volta do trabalho, paro no corredor e olho para a esquerda, para a cozinha, e vejo minha mãe debruçada na janela, com o queixo apoiado nas mãos. Já fez o jantar e ainda está de avental. Vejo a cabeleira branca descendo por suas costas pequenas. Pergunto o que está fazendo, e ela: Esperando. Sei que seu pai vai voltar um dia. Quero ser a primeira a vê-lo atravessando o jardim.

Olho para a direita, para a sala, e vejo meu pai apertando furiosamente os botões do controle remoto da televisão, resmungando Mas será que não passam mais os filmes da Sophia Loren?

Vendo-os, penso em coisas como

o tempo, que avança,

o relógio, que nunca retrocede,

a vida, que segue,

a memória, que se esfarela,

o amor, que perfuma,

as lembranças, que esmaecem,

a velhice, que é bruta,

a espinha, que verga,

a saudade, que dói.

É nessas coisas que penso quando volto do trabalho, entro em casa e olho para a esquerda, depois para a direita.

Permaneço parado no corredor, sem respirar ou mover um músculo, temeroso de que qualquer movimento que eu faça rompa o fio, tênue e frágil, que ainda os mantém unidos e vivos.




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6 de janeiro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos direita, esquerda, fio, mãe, pai

              
            
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