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15 de julho de 2020

O fio

Todas as noites, quando entro em casa de volta do trabalho, paro no corredor e olho para a esquerda, para a cozinha, e vejo minha mãe debruçada na janela, com o queixo apoiado nas mãos. Já fez o jantar e ainda está de avental. Vejo a cabeleira branca descendo por suas costas pequenas. Pergunto o que está fazendo, e ela: Esperando. Sei que seu pai vai voltar um dia. Quero ser a primeira a vê-lo atravessando o jardim.

Olho para a direita, para a sala, e vejo meu pai apertando furiosamente os botões do controle remoto da televisão, resmungando Mas será que não passam mais os filmes da Sophia Loren?

Vendo-os, penso em coisas como o tempo, que não para, o relógio, que nunca retrocede, a vida, que segue, a memória, que esfarela, o amor, que perfuma, a velhice, que é bruta, a espinha, que verga, a saudade, que um dia vai doer.

É nessas coisas que penso quando volto do trabalho, entro em casa e olho para a esquerda e depois para a direita.

Permaneço parado no corredor por muitos minutos, sem respirar ou mover um músculo, temeroso de que qualquer movimento que eu faça rompa o fio, tênue e frágil, que ainda os mantém vivos.

 




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15 de julho de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos conto, fio, mãe, pai, relógio, tempo, velhice

              
            
  1. Que texto lindo!! O fio tão tênue da linha da vida a qualquer momento pode ser romper!! Isso é lindo e triste!! Um paradoxo!! Beijos

    • A nossa existência está aí por um fio, não é verdade? Por qualquer coisinha podemos não estar mais aqui. É realmente um paradoxo: hoje, vivos, amanhã, quem sabe? Abraço grande e obrigado pela visita ao blog.

  2.     
                        
              
            
                

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