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26 de junho de 2019

O fulano do telejornal

Tão sutil e disfarçado, e tão incrível, que os telespectadores não perceberam de imediato, mas depois de poucos minutos não restou dúvida: o apresentador do telejornal aproveitava os intervalos comerciais para se montar. Não perdia também os instantes em que alguma reportagem externa era transmitida ou quando sua colega de bancada lia o teleprompter e a câmera não o enquadrava. Seu rosto, a cada instante que passava, ia se assemelhando ao de uma drag queen.

Primeiro aplicou uma cobertura de base cor da pele, acentuando a palidez que as luzes brancas do estúdio colavam em seu rosto. Depois desenhou as olheiras new gotic, que lhe conferiram profundidade ao olhar. Um pouco de rímel escorrido complementou o ar misterioso da personagem que ele decidiu representar. Cor vermelha nos lábios carnudos, vermelho também nas bochechas, e um azul intenso nas pálpebras, com pinceladas leves de dourado: já era outro rosto, outra figura, outro fulano. As sobrancelhas finas, delicadamente contornadas com lápis preto, deram o toque Morticia Addams ao visual. Estava pronto.

Tinha se transformado numa boneca de porcelana, igual às vendidas em brechós ou em lojas de antiguidades, uma dessas bonecas que não servem para brincar, porque quebram, e têm como destino o pó de uma prateleira qualquer. E o esquecimento.

A mutação do apresentador só foi completamente percebida por todos quando a colega de bancada, num acesso de riso, tocou seu braço e sussurrou É a sua vez, Noiva-cadáver. O estúdio explodiu em gargalhadas. O apresentador olhou para a câmera, ficou muito sério e tomou ares de importância. Seguiu lendo o teleprompter:

— E agora vamos ao noticiário político.

 




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