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16 de maio de 2020

O futuro é perto

Enquanto o CD não inicia as canções, olhamos os dois pela janela. Essa fumaça que vemos não é de seu último cigarro: é o meu cérebro, que faz um movimento para trás e revê tudo. Este país é o país do futuro, alguém disse há muito, muito tempo. A janela traz aos olhos a garoa e uma cidade deserta e eu parafraseio: Esta cidade é a cidade do futuro… e sempre será. Eu sei, é uma grande frase. Se fosse minha, se eu a tivesse criado por conta própria, compraria um alto-falante e a propagaria aos sete ventos. Mas só tenho o meu cérebro como caixa de ressonância, e ele está num movimento de retroação. Diante de meus olhos só a cidade deserta, a garoa e o tempo de o CD iniciar as canções.

Você me diz para prestar atenção no salgueiro do outro lado da rua e no velho de boina vermelha que se escondeu da garoa debaixo da ramagem. Ele nos olha e faz sinais, parece que quer dizer alguma coisa a estes dois bonecos de cera quase imóveis no lado de dentro da janela, mas estava longe demais para ser escutado, embora perto o suficiente para ser ouvido. O velho abandona o abrigo do salgueiro e dele sai uma voz, da voz, a última frase que escutamos antes de começar a primeira canção do CD: Sempre haverá putas cavalgando nas costas do futuro, olhando para o céu e com os cabelos ao vento, feito sereias. Esse é o capricho do tempo. A garoa aumentou e agora chove forte.

Eu ouvi putas, você, chuva. Eu, capricho, você, nada. Dá no mesmo: o velho e o que entendemos de diferente em sua voz não nos tirarão de casa nem da janela, nem do confinamento, nem de nossos livros e CDs de sempre. Nosso futuro é perto, e nos devasta.

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