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28 de maio de 2019

O futuro foi muito pior

A Lucíolo, o Luci, rico dono de gado e fazenda, alto e barbudo, temente e devoto dos quatro pilares que sustentavam o país em que vivia — Deus, o futebol, o machismo e as Forças Armadas — lhe agradava fazer sempre na mesma posição: pedia que a senhorita se pusesse de quatro, enfiava na frente, mas por trás, com uma mão a segurava pelos cabelos, como se domasse um potro no pasto, sujeitando-o pela crina, e com a outra mão empunhava uma Bíblia de folhas engorduradas escrita em holandês arcaico, tão arcaico que Londres ainda era Londra e o Novo Mundo não existia nem na imaginação de Cristóvão Colombo.

Cada estocada de seu quadril provocava um grito da moça, e Luci retrucava com três miserere nobis, um para São Teodoro, protetor dos bastardos e dos ejaculadores precoces, outro para Santa Marta, irmã noviça carmelita, a virgem cuidadora dos sonâmbulos e o terceiro e último para Nossa Senhora de Barretos, padroeira dos que mudam de opinião, dos hipócritas e dos eternamente em dúvida.

Assim que terminava, corria pelo quarto ganindo como um cachorro ferido de morte e rezava o Pai-nosso num fôlego só, rogando ao arcanjo Gabriel que o guardasse de noivas furiosas e não o transformasse em alvo de trabucos e espingardas. Antes de se limpar costumava celebrar com um tiro para o alto, mas percebeu que essa prática assustava a convidada e cansou-se de mandar consertar o telhado da casa. Minutos depois se acalmava, punha o valor combinado na mão amedrontada da senhorita e ainda dava gorjeta. Assoviava para o motorista que estivesse de plantão e despachava a moça para casa.

Esse era Lucíolo, o Luci, até o dia em que conheceu Germana, que não era uma aranha, mas tecia.

 




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28 de maio de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos aranha, arma, crina, futuro, tiro

               
              
            
                

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