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8 de agosto de 2019

O gago solitário

Era gago e falava tu-tu-tu-tudo bem? As meninas riam, ele saía correndo. Em casa, o pai debochava: É um veadinho, não sabe nem falar direito. A mãe vivia distraída: Zé, tô com dor na nuca, faz uma massagem, bem? Mas sem machucar tanto, só um pouco. Ai, Zé… O irmão mais velho já fazia sucesso e colecionava namoradas. Gaguinho, fala pro seu irmão que hoje saio mais cedo da escola, as molecas, sempre oferecidas. Ele, sempre retraído, conversava sozinho e não gaguejava, que isso era só na frente dos outros. Apresentar trabalho diante da classe era um tormento, todos olhando e segurando o riso. A professora também ria, pouco, mas ria.

Adolescente, conformou-se com a gagueira e a solidão. Passeava pela margem do rio, jogava pedra na água, costumava cantar baixinho uma canção aprendida no rádio. Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu… O pai insistia no deboche: Aposto que nunca viu uma, é virgem, o veadinho. A mãe: Ai, bem, tá me doendo a coxa, faz uma massagem, Zé, mas sem machucar… tanto. Vem aqui no quarto, bem. O irmão não conversava, Sai pra lá, gaguinho, não enche, vou namorar agora. Vontade de matar. Ia andar na margem do rio e a vontade passava.

No último dia de férias, Aline, a mais bonita, se aproximou dele e pôs um envelope em suas mãos. Não disse nada. Ele até tentou perguntar o que era, mas a gagueira atrapalhou e ela já estava longe. Sentou-se numa pedra e olhou o envelope. Abriu e tirou uma folha branca, escrita com letra delicada. Era uma carta de amor, pequena, de poucas palavras. Palavras apaixonadas. Tinha erro de ortografia, mas ele não ligou: que importância tinha isso se foi escrita por Aline, a garota dos sonhos? Deitou-se de costas sobre a grama, apoiou as mãos sob a cabeça e olhou para o céu. Imaginou os lábios de Aline pressionando os seus, as mãos dela acariciando seu rosto. Fechou os olhos e quase sonhou. Antes, dobrou a carta e a guardou no bolso. Um tesouro. O envelope, não: picou em mil pedacinhos e escondeu tudo no barro da margem do rio. Ninguém precisava saber que ali estava escrito o nome de seu irmão. Nem mesmo seu irmão.

 




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8 de agosto de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos amor, carta, envelope, gago, solitário

               
              
            
                

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