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26 de dezembro de 2016

O grito sob a chuva

Ela não para de gritar. O som desses ais de agonia entra nos meus ouvidos e lá fica, martelando minhas têmporas. Encosto o rosto no vidro da janela e olho a chuva. Meu desejo maior é sair para a rua e receber a água fria diretamente no rosto. Quando era criança, não tinha prazer maior que sentir a água escorrendo desde os cabelos e encharcando meu corpo todo. Minha mãe gritava: Sai da chuva, moleque, que você pega uma pneumonia. Minha mãe sempre gritou, sempre. Como agora, mesmo que agora seus gritos sejam de outra ordem.

Volto a olhar para ela, volto a ouvir sua voz dolorida. Nos últimos meses tive que contratar três enfermeiras, nenhuma delas aguentou mais que três semanas seguidas. A médica disse que é uma fase, que logo passará. Para a doutora é fácil falar: não tem que presenciar a transformação assustadora de uma pessoa em um vegetal macilento e descolorido insistindo numa não-vida. Hoje somos somente eu e ela e os momentos de lucidez são cada vez mais raros. Quando surge um, ela me reconhece e de repente se põe a soluçar e a gritar: ai, ai, ai. A maldita doença que semeia o esquecimento encontrou naquele corpo mirrado terreno fértil para se alastrar. Há quanto tempo dura essa colheita? Muito tempo.

Preparo o banho. Os gritos não cessam. Pego-a no colo, não pesa muito pois quase não come. Coloco-a na cadeira de rodas e começo a despi-la. Quando vê a água, grita mais forte e seus olhos se convertem numa opaca súplica azul. Ela tinha se esquecido do quanto lhe encantava a água do banho, anos atrás. Agora, uma banheira cheia é uma ameaça, a certeza da morte, e ela não quer morrer. Ai, ai, ai, minhas têmporas latejam.

Lavo seus cabelos com cuidado e lhe peço perdão em voz alta, digo Mamãe, vou deixar seus cabelos bonitos e cheirosos, não tenha medo da água. E me perdoe. Ela me olha com os olhos vazios e não sei se me entendeu. Tiro suas mãos da barra de segurança, aperto-as com força numa das minhas e, com a outra mão livre, empurro e seguro firmemente sua cabeça dentro da banheira. Num segundo começam as convulsões, seu corpo todo estremece e tenta pular. Poucos segundos depois tudo é mansidão e quietude e silêncio.

Saio do banheiro e ganho a rua. Abro os braços e viro o rosto para cima, os olhos fechados. Deixo que a chuva me empape e grito.

 




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26 de dezembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos água, chuva, gritos, mãe

              
            
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