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23 de fevereiro de 2016

O homem-avestruz

EspantalhoUm homem viaja de trem todos os dias, de sua cidadezinha até a capital, a trabalho. E todos os dias, num ponto determinado do trajeto, levanta os olhos do jornal e olha pela janela para vê-la. Lá está, no meio de uma vasta plantação de trigo, uma menina vestida com uniforme escolar e duas fitas vermelhas prendendo as tranças compridas e negras. Sempre que ouve o apito do trem, a menina joga no chão a mochila que carrega, fecha os olhos, abre os braços e o sorriso e balança o corpo para os lados, como um grande pássaro prestes a alçar voo. Parece tomada de incontrolável alegria, um doce e pequeno espantalho no meio do milharal saudando o trem e os passageiros que iam para destinos que ela desconhecia. Todos os dias o homem a vê no meio do campo, percebe sua felicidade e sempre lhe devolve o aceno, mesmo que saiba que ela não pode vê-lo. Volta os olhos para o jornal, agora mais sereno e quase alegre: a visão da menina que parecia querer voar fazia seu dia começar melhor e mais feliz.

Tudo muda algum dia, porém. O homem se deixou trair por seus medos e inseguranças. Alojou-se em seu pensamento a possibilidade de algum dia olhar pela janela e não ver mais a menina balançando o corpo e saudando o trem. Que terrível isso seria! Que tragédia seria perder sua porção delicada e diária de felicidade! Essa ideia o deixou transtornado. Tão transtornado que, nos dias seguintes, quando o trem se aproximava do milharal, ele enterrava os olhos no jornal e, sob nenhuma hipótese, virava a cabeça para a janela para ver o pequeno espantalho agitando os braços ao vento. Assim, sem olhar para fora, o homem tentava apaziguar o coração e imaginar que, sim, a menina continuava lá, e sempre estaria lá, no meio da plantação, os braços abertos e toda alegria, saudando os passageiros que seguiam para a capital.

Mesmo sem olhar pela janela, o homem seguia viagem com o peito em paz. Sabia que a menina estava lá, agitando os braços quando ouvisse o apito do trem, e não o contrário: que ela havia abandonado o milharal e seguido para outro destino, os braços já bastante treinados na arte de voar. Não, isso não.

 




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